Língua PortuguesaCrônica e contoINSTITUTO MAIS 2022
CM Cajamar
Questão de Língua Portuguesa
Sempre tive afeição por árvores, pela vida de outras espécies. Onde morava com minha família, durante minha infância, em um vale entre os bairros do Engenho Velho de Brotas e o Engenho Velho da Federação, em Salvador, havia pitangueiras, mangueiras e amendoeiras ao redor do pequeno edifício. Lembro-me exatamente do sabor das pitangas e das mangas, muitas vezes consumidas verdes porque na infância há pressa para crescer e viver. Não havia tempo de esperar uma fruta amadurecer. Nessa disputa com o tempo, era preferível comê-las verdes antes que algum animal, pássaro ou morcego se antecipasse à nossa vez. Anos mais tarde, e sendo empurrado para lugares cada vez mais longe do centro por causa da alta dos aluguéis, fomos morar numa pequena casa com dois canteiros. Nela, me apossei dessa fração de terra, como se fosse o que realmente interessava. Ali, talvez tenha plantado minha primeira árvore, um pinheiro. Longe de ser uma espécie nativa, a árvore chegou sem nenhuma preocupação particular, apenas pelo que ela era: um ser vivo. Quando o pinheiro completaria duas décadas e já havia ultrapassado a cumeeira da casa, começamos a ter problemas com suas raízes. Uma fenda se abriu na parede da sala, e por mais que reparássemos, ela voltava a arrebentar. Nessa batalha pela sobrevivência, a árvore avançou sobre o terreno e o canteiro estreito já não era mais suficiente para suprir suas necessidades. Chegávamos a uma encruzilhada e já não mais havia escolha. Depois de ouvir os trabalhadores do bairro, habituados a problemas dessa natureza, decidiu-se pela remoção da árvore. O canteiro não ficou vazio. Voltei a plantar, dessa vez murtas, flores perfumadas que atraíram borboletas, abelhas e toda sorte de insetos. Suas raízes ainda convivem bem com a casa sem ameaçar sua estrutura. Mas o que eu queria dizer é que a árvore que se foi era alguém da família, alguém muito próximo. Alguém com personalidade própria, que abraçava a casa e assim nos abraçava também. No dia de sua morte, eu saí, porque não suportaria vê-la morrer. Mas isso não me livrou do luto e de todas as dores que se seguem à morte de alguém a quem estamos ligados. Passei pelos canteiros por muitos dias sem conseguir olhar diretamente para o vazio que ficou. À noite, as luzes do poste adentravam a casa de uma maneira muito diferente. De dia, o sol se tornou tão opressor que meu luto foi se tornando branco e marcado por aquele incômodo nos olhos. Por outro lado, a cidade onde atualmente moro tem visto, como tantos outros lugares, árvores desaparecerem pela forma predatória com que nossa espécie decidiu viver sobre a Terra. Quinhentos milhões de árvores em 2021, somente na Amazônia, é o número desse outro morticínio que temos enfrentado silenciosamente. E pela morte desses seres não escuto nenhum lamento. (JUNIOR, Itamar Vieira. A vida das árvores. Folha de São Paulo, 12.12.2021. Adaptado).
É correto afirmar que, em relação ao seu pinheiro, o autor do texto
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.
