Língua PortuguesaFinalidade do texto e intenção do autorINDEPAC 2024
Pref Cajamar
Questão de Língua Portuguesa
Bem sei, leitor. Dirás que isto não é coisa que se recomende. Ora! Por isso mesmo é que o faço. Que graça tem recomendar lugares que todos conhecem? E ir a hospitais só para consertar a perna, a cabeça, as tripas ou os restos? Bem mais interessante é, em lá se indo, forçado por coisas desagradáveis, catar os prazeres que aparecem. No Hospital São Lucas – onde entrei para fazer companhia a meu fígado que estava adoentado – esses prazeres se oferecem de maneira furtiva. Por ser hospital, e governado por adventistas. O detalhe religioso tem inúmeras consequências culinárias. O café, por exemplo – por motivos litúrgicos que ignoro –, é sistematicamente substituído por um chá de cevada. Junto ao leite, não chega a ser grave. Sozinho é uma extrema desgraça. Queixei-me a uma amiga. Recomendou-me que o adoçasse com açúcar mascavo. Graças aos bons ofícios de mme. P., consegui um pouco da coisa. Não melhorou em nada o cafezinho. Já a história de que lá não se come carne é mentira. Bifes de soja e iguarias de origem igual ficam reservados aos enfermeiros, aos médicos e a outras pessoas que se ocupam dos pacientes. Quanto a estes, devem prestar atenção para nunca prolongar sua estada pelos sábados adentro. É dia de descanso. Sofrem as cozinhas. Quanto a estas – assunto que mais interessa a quem fica deitado de barriga para o ar sem fazer nada –, seu comportamento é muito mais satisfatório do que imaginava. Fabricam comida de hospital. Claro. Com todas as limitações impostas pela preocupação de manter vivos e mais ou menos saudáveis os hóspedes do lugar. Nem por isso se descuidam. E, nos quinze dias que lá passei, quando distraía minha atenção do soro que me entrava pela veia, alimentando-me sem prazer nem lágrimas, tive boas surpresas. A melhor delas foi, sem dúvida, um doce de mamão em calda, delicioso e cheio de mistérios que, uma noite, sentou-se em meu leito. Digo misterioso porque, pela consistência e feitio – diferentes dos que estamos acostumados –, deixou-me uma dúvida por muito tempo sobre o que comia. E só o descobri quando me contaram. O mistério, aliás, parece o mais curioso encanto da comida do São Lucas. Em certo almoço, ou jantar, veio-me um bife – por sinal, saboroso –, acompanhado de um legume ótimo e desconhecido. Fiz mme. H., que estava presente, provar a coisa. Disse desconhecê-la. Só mais tarde, interrogando o serviço, vim a saber que comera... espinafre. Nem tudo, claro, é bom. Em geral, os legumes pecam por excesso de cozimento e pela intromissão injustificável de molho de tomate. Por causa deste, me estragaram mais de uma couve-flor. E ainda me lembro de um terrível peixe à mr. Hyde, estorricado, que, apesar da fome, tive que deixar intacto em sua triste bandeja metálica. Mas a falta de gosto que espreita os legumes teve exceção notável com um brócolis (flor, um pouco de folha e tenros caules, tudo cortado com precisão japonesa) dos mais saborosos que tenho provado. Acompanhava uma decente galinha, com peles crocantes. (Foi ela, cronologicamente falando, o primeiro indício que tive da inventividade da cozinha hospitalar, o que me levou a ir anotando o que aparecia na bandeja). Por falar nela, carrega – também metálico – um bule para leite ou chá fabricado pela Sibaf (espero que esta fábrica abra falência ou pegue fogo), que é um atentado contra todos os princípios morais. É fabricado de maneira que, quando vira um pouco, entorna quase todo o conteúdo pela borda, sobre a incauta criatura que tenta servir-se. (E o chá de cevada entornado não é nem um pouco melhor do que bebido). Quanto ao serviço, é bom, embora seja quase impossível pedir-se qualquer coisa extra. Mesmo permitida. A capacidade de computação das serventes sofre paralisação quase total durante as refeições. E bem gostaria eu que estas – principalmente o jantar – surgissem à cama em hora mais civil. Para isso, no entanto, é preciso voltar para casa ou ir a um restaurante. Werneck, Humberto (org.). Boa companhia: crônicas. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. (Adaptado).
Assinale a alternativa que apresenta a afirmação que reflete com mais precisão a atitude do autor em relação à comida e ao serviço hospitalar no Hospital São Lucas.
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