Língua PortuguesaModalização e marcas de subjetividadeFUNRIO 2018
ALERR
Questão de Língua Portuguesa
Anotações sobre uma pichação Faz provavelmente uns dois anos que topei com a frase pela primeira vez, num muro qualquer da cidade. Em pouco tempo, era impossível deixar de vêla. Da noite para o dia, como uma infecção, onde houvesse um tapume, muro, parede, empena ou porta de ferro, ela aparecia:Não fui eu. É certo que, pichada num muro de Estocolmo, os sentidos que ganharia seriam outros, e não há dificuldade em imaginar que conteúdos ela traria à tona em Berlim. História e geografia aqui são determinantes. O passado é tudo. Minha hipótese é de que, no Brasil, a frase é imediatamente lida como um protesto de inocência. A um brasileiro não ocorrerá interpretá-la como manifestação de modéstia, como recusa de um crédito indevido – Não, essa honra não me cabe, ou Não, o mérito não é meu. Como violência, desigualdade e desordem formam a teia de nossa existência cívica, o que se insinua nas entrelinhas de Não fui eu não é a virtude, mas o delito. Delito dos outros, no caso. A transferência de ônus é o que parece dar força ao enunciado, na medida em que fundamenta uma verdade incômoda sobre nossa condição de cidadãos brasileiros. Como tantos de nós, o autor está tirando o corpo fora. Ignora-se a identidade do autor dessa frase com a qual o carioca convive há anos e que continua a se disseminar pelas superfícies da cidade. Numa reportagem de 2017 da Veja Rio, ele afirma que se manterá no anonimato: “Se a pichação funciona como uma assinatura que reivindica a autoria, meu trabalho é uma assinatura que nega a própria autoria. Comecei a me interessar pela potência poética que surgia disso e pelas diferentes leituras que a frase poderia ter na rua.” Fez bem. Não sendo enunciada por ninguém em particular, a frase pertence a qualquer um. A sensação difusa de que ela exprime um éthos*, de que essas três palavras falam de nós, é uma confirmação de que, dado o alheamento geral, o melhor mesmo é jogar a toalha e ir cuidar da vida. (*Éthos: palavra com origem grega, que significa "caráter moral") SALLES, João Moreira. Revista PIAUÍ, 2018. (Adaptado)
A modalização diz respeito à expressão das intenções e pontos de vista do enunciador. Delito dos outros, no caso. A transferência de ônus é o que parece dar força ao enunciado, na medida em que fundamenta uma verdade incômoda sobre nossa condição de cidadãos brasileiros. Como tantos de nós, o autor está tirando o corpo fora. Nesse parágrafo, observa-se uma marca de modalização para se fazer uma suposição. Assinale tal marca.
Mais questões de Modalização e marcas de subjetividade
- CMRJ 2027Em diversas passagens do texto, o autor enreda o leitor, travando com ele um diálogo informal. Como marca notória dessa interlocução, podemos citar o uso
- COTEC FADENOR 2026Analise as afirmativas a seguir, tendo em vista as ideias veiculadas no texto. I- A sensibilidade é uma característica das pessoas que se emocionam com as pequenas coisas. II- A t…
- NUCEPE UESPI 2026Na frase “Você já reparou como um livro pode mudar o seu dia?”, a forma verbal “pode” expressa:
- Avança SP 2026Assinale a alternativa cujo elemento destacado é um modalizador, que exprime o ponto de vista do locutor, não se referindo a nenhum elemento linguístico do enunciado.
- Avança SP 2026Assinale a alternativa cujo elemento destacado é um modalizador que faz referência a todo o enunciado, e não a uma parte específica dele.
Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

