Língua PortuguesaGêneros literáriosCONSULTEC (AIETEC) 2026
UNIFACCAMP
Questão de Língua Portuguesa
Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha: — Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo? — Deixe-me, senhora. — Que a deixe? Que a deixe por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça. — Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros. — Mas você é orgulhosa. — Decerto que sou. — Mas por quê? — É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu? — Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu? — Você fura o pano, nada mais. Eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados. — Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando. — Também os batedores vão adiante do imperador. — Você é imperador? — Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto. A costureira chegou, pegou no pano, pegou na agulha, pegou na linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana. A agulha ia furando o pano, ora acima, ora abaixo, abrindo caminho para a linha, que passava depois e ficava unindo os pedaços. Quando a costura acabou, a baronesa vestiu o traje novo e foi ao baile. A linha, orgulhosa, acompanhou o vestido, entrou no salão, dançou com ministros e diplomatas. A agulha voltou para a caixinha da costureira. Um alfinete, de cabeça grande e alguma experiência, disse então à agulha: — Anda, aprende. Cansas-te em abrir caminho para ela, e ela é que vai gozar a vida, enquanto ficas aí guardada na caixa de costura. ASSIS, Machado de. “Um apólogo”. In: Várias histórias. Texto adaptado. Página 5
O texto de Machado de Assis pode ser reconhecido como um apólogo porque
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.
