Língua PortuguesaModo subjuntivoGUALIMP 2021
Pref CL Gasparian
Questão de Língua Portuguesa
O RATINHO CURIOSO Ela já estava quase dormindo, quando ouviu no escuro do quarto um barulhinho de alguma coisa sendo roída: – Rec-rec-rec... Abriu os olhos e ficou à escuta. Sendo roída? O rato roeu a roupa do rei, escrevia ela nas suas aulas de datilografia. Só podia ser um rato! Deu um pulo da cama, sacudiu o marido: – Acorda, meu bem. Acorda. Ele acordou com um susto: – Que foi? Que aconteceu? – Escuta só. Ela atenta, olhos esbugalhados, ele intrigado, olhos sonolentos, os dois ficaram um instante em silêncio na escuridão. – Não estou ouvindo nada. – É porque você falou alto. Ele se assustou e fugiu. – Quem? – O rato. – Que rato? – O que estava roendo no escuro. Ele soltou um suspiro: – Você sempre ouvindo coisas. Não tem rato nenhum. Acendeu a luz e deu uma volta pelo quarto, olhando nos cantos. Depois espiou debaixo da cama. – Eu não disse? Você estava sonhando. Acomodaram-se, ele apagou a luz. Ela não conseguiu dormir. Bem que dois dias antes, lembrava-se agora, quando estava assistindo à novela na televisão, tinha visto com o rabo do olho uma pequenina sombra deslizar junto à parede do fundo. Na hora julgou que fosse imaginação sua, ou problema com as lentes de contato, precisava voltar ao oculista. Agora tinha certeza: um rato, só podia ser. Talvez um camundongo, mas um camundongo não deixava de ser um rato. Encolheu-se na cama, horrorizada: um rato no apartamento recém-alugado e decorado, sala e quarto separados, depois daquele horrível conjugado dos primeiros meses de casada... Desta vez ouviu nitidamente: – Rec-rec-rec... E desta vez foi ele quem deu um salto: também ouvira o ruidinho. Acendeu a luz e viu – ambos viram – um camundongo atravessar o quarto em direção à porta do corredor. E levava calmamente na boca o almoço, um pedacinho de papel. Passaram a noite em claro. Ela não admitia que ele dormisse: ido embora como? Por debaixo da porta? Mal nasceu o dia, correu ao telefone: – Mamãe, que é que eu faço? Experiente, a mãe orientou: tenha calma, minha filha, ele não aparece de dia, tem medo de gente. Compre veneno na farmácia, bote no queijo, espalhe pedacinhos por toda parte. Ele acaba aparecendo morto. Ela torcia as mãos, sentindo um arrepio pelas pernas, como se fosse o próprio camundongo. Depois de executada a operação veneno, o marido foi para o trabalho. – Eu é que não fico aqui sozinha. E ela se mandou para a rua. Passou o dia fora, visitou amigas, contou a sua desdita. Uma recomendou-lhe o serviço de desratização da prefeitura, que em 48 horas...Outra achava lagartixa pior: um dia foi calçar o sapato e sentiu uma coisa mole e fria se mexendo sob a sola do pé. À noitinha, com a garantia da presença do marido, ousou voltar para casa. A notícia havia se espalhado. Houve quem telefonasse dizendo gracinhas: – O Mickey Mouse está? – Aqui é Dom Ratão. Queria falar com meu filho, o Ratinho Curioso. Ela não achava graça, seu senso de humor não dava para tanto. Enquanto o marido lia o jornal, ficava à espreita, olhando um lado e outro, a vassoura nas mãos como um tacape. – Larga isso, mulher. Parece maluca! Um amigo veio visitá-los. Ela arriscou a sentar-se ao lado do marido, pernas encolhidas. – Compre uma ratoeira – sugeriu o amigo: - É o melhor. E contou que uma noite, na cozinha, deu com uma coisa fugindo para debaixo do fogão. No dia seguinte botou uma ratoeira e pegou um camundongo. Por via das dúvidas armou outra, no dia seguinte pegou mais um. E assim foi, todo dia- pegou nada menos que seis: – Acabei desistindo. Parecia brincadeira. Resolveram jantar os três num restaurante. Ela foi se vestir. Caminhava na ponta dos pés. De repente deu um grito lá do quarto. O marido acorreu e ela, virando o rosto para o outro lado, apontou dramática a gaveta que acabara de abrir. No canto havia um pouco de cocô de ratinho. – Eu não dizia? – a mão espalmada, como se espantasse o demônio: imagine se ela encontrasse na gaveta um rato aninhado num sutiã! Roeu a roupa do rei: a verdade é que ele próprio tinha encontrado uns papéis roídos na sua gaveta e não disse nada. Eram papéis sem importância. De volta do jantar, verificaram um por um os pedaços de queijo e deram por falta de dois. O que significava que o rato tinha comido o veneno. – Já deve estar morto duas vezes. É fulminante. Em pouco ele soltava uma exclamação lá da cozinha. E apareceu na porta, triunfante, segurando pelo rabo um ratinho morto: – Não falei? – Joga fora, pelo amor de Deus! E lave as mãos com álcool! Mais tarde, reintegrada na felicidade de sempre, ela aceitou celebrar a vitória tomando com um ele um uísque. Depois foram para o quarto. Até que, entre um suspiro e outro, ouviram no escuro um barulhinho de alguma coisa sendo roída: – Rec-rec-rec... (Fernando Sabino)
Leia a seguinte frase do texto: - Compre uma ratoeira – sugeriu o amigo: - É o melhor. Em qual modo verbal está a palavra em destaque?
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.
