Questões de Língua Portuguesa · NUCEPE UESPI

Língua PortuguesaOperadores argumentativosNUCEPE UESPI 2007

PM PI

Questão de Língua Portuguesa

Redução de danos 01 Temos usado e abusado da expressão “qualidade de vida”. O que me incomoda é perceber 02 que tal conceito tem sido difundido, amplamente explorado e absorvido por muitos de modo 03 egoísta e míope. 04 Ao darmos uma rápida olhada em reportagens nos diferentes veículos de comunicação e 05 nas idéias que concebemos a esse respeito, percebemos logo que qualidade de vida parece ter 06 relação exclusiva com o objetivo de buscar o bem para si. E, como se não bastasse essa 07 limitação, ainda há mais: buscar o bem para si parece incluir apenas a saúde física devidamente 08 enquadrada na ideologia das ciências biológicas em voga e em preceitos higienistas considerados 09 politicamente corretos na atualidade. 10 Isso só contribui para que o conceito original seja desvirtuado. A saúde mental, por exemplo, 11 seria mera resultante da correta administração da saúde física. E a vida das relações 12 interpessoais? Quase não é considerada. Resultado? Para ter qualidade de vida, é preciso 13 perseguir uma meta inatingível para a maioria de nós, humanos mortais, e ignorar que somos 14 seres interdependentes que vivem em grupo. 15 Para começar, a idéia de corpo nessa concepção tem sido cada vez mais desumanizada e 16 submetida aos padrões de beleza atuais, mesmo que sutilmente. Como conseqüência, as de 17 nutrição, de autocuidado, de beleza etc. giram em torno desse centro. Como disse Nina Horta 18 recentemente em sua coluna, fala-se muito em comer isso ou aquilo para garantir a saúde 19 nutricional, mas nada do prazer de comer e do sentido de comunhão que as refeições têm. Ora, 20 ao fazer uma refeição, eu não quero somente ingerir vitaminas e sais minerais e deixar de ingerir 21 gorduras. Quero ter prazer socialmente compartilhado, isso sim. 22 (...) 23 Li recentemente uma reportagem em que um especialista em bem-estar e qualidade de vida 24 afirmou que caminhar não deve ser considerado prática física, e sim obrigação. Pois, se levarmos 25 a sério o conceito de qualidade de vida, obrigação seria buscar uma vida digna e isso só se 26 encontra ao procurar o bem não apenas para si, mas para o outro também. Afinal, somos porque 27 pertencemos, não é verdade? 28 De que adianta viver mais se não podemos exibir as marcas da velhice? De que adianta 29 investir pesadamente na saúde física pessoal se, ao ignorarmos o bem-estar coletivo, ficamos 30 impedidos de desfrutar da vida em comum? De que adianta fazer de tudo para manter a saúde 31 física se as relações afetivas – notadamente com os filhos – não são carinhosamente priorizadas? 32 De que adianta ter uma carreira profissional exitosa se não sobra tempo para a vida pessoal? De 33 que adianta lazer sem ócio? 34 Talvez pudéssemos nos beneficiar muito mais do conceito de qualidade de vida se o 35 entendêssemos como um objetivo virtuoso e não como um investimento que se mostra idealizado, 36 individualista e consumista. Talvez até pudéssemos trocar a expressão “qualidade de vida” por 37 “dignidade de vida”. Faz muito mais sentido nos tempos atuais, não? Aliás, como parece fazer 38 muito mais sentido no presente a expressão “prática de redução de danos” do que “busca de 39 qualidade de vida”. (Rosely Sayão – Jornal Folha de São Paulo, 19 de julho de 2007)

No último parágrafo do texto, a autora reafirma seu ponto de vista sobre o conceito de “qualidade de vida” por ela defendido através, principalmente, do recurso da:

Sua resposta

Mais questões de Operadores argumentativos

Ver as 294 questões de Operadores argumentativos

Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.