Língua PortuguesaSignificação de palavras e expressões em contextoBioS Concursos 2026
Pref Dormentes
Questão de Língua Portuguesa
Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam. — Bom dia. — Bom dia. — A senhora é do 610? — E o senhor do 612. — É. — Eu ainda não o conhecia pessoalmente... — Pois é. — Estava revendo a sua vida no seu lixo. — Como? — O seu lixo. O conteúdo do seu pacote. — Ah... — O senhor fuma? — Um pouco. — Três maços por dia. — Como é que a senhora sabe? — Pelas embalagens. — Ah. — E é vegetariano. — Sei... A senhora também examina as cascas de legumes? — Examinar não é bem a palavra. Elas saltam aos olhos. O senhor não come carne. O senhor não gosta de frango, nem de peixe. Só de cenoura, chuchu e abóbora. — É que eu estou num regime. — Sei. E toma muito vinho. — É para o coração. Me disseram que uma taça de vinho tinto... — Duas garrafas de "Gato Negro" por dia? — Bem... — E o senhor gosta de ler. — Como é que a senhora sabe? — Pelas revistas de informática. — Ah. — E o senhor está com um problema de pele. — Isso a senhora não pode saber. Não joguei nada fora que... — O senhor comprou um creme para dermatite. A bisnaga estava vazia. — É verdade. — E o senhor é muito sozinho. — Por que a senhora diz isso? — Pelos catálogos de pedidos pelo telefone. O senhor pede tudo em casa. E pelas quentinhas. O senhor não cozinha. — É... — O senhor não mora com ninguém. No seu lixo só tem material de uma pessoa. — É verdade. Mas e o seu lixo? — O meu? — A senhora é casada, tem dois filhos, um deles ainda usa fraldas, o outro gosta de iogurte de morango, o seu marido fuma charutos, a senhora usa hidratante caro, joga fora muitas flores... — Como é que o senhor sabe tudo isso? — No seu lixo tem fraldas, copos de iogurte, pontas de charuto, potes vazios de creme francês e muitas flores murchas. — Engraçado... — O quê? — Eu sempre achei que o lixo fosse a coisa mais particular de uma pessoa. Mas o lixo é público. — Pois é. Os dois ficaram em silêncio por um tempo. — O senhor quer jantar comigo hoje à noite? — O quê? — É que hoje eu não vou produzir lixo. Vou comer fora. E se o senhor quiser me acompanhar... — Aceito. — Ótimo. Só uma coisa. — O quê? — No meu lixo você não viu nenhuma embalagem de veneno, viu? (Luiz Fernando Veríssimo)
A partir da leitura do diálogo entre os vizinhos, pode se afirmar que o "lixo" funciona no texto como
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.
