Questões de Língua Portuguesa · SUSTENTE

Língua PortuguesaSinônimos e antônimosSUSTENTE 2026

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Questão de Língua Portuguesa

O lixo que desaparece da mão, mas não do mundo Há um truque cotidiano tão eficiente que quase ninguém mais percebe sua mágica: a pessoa termina o refrigerante, amassa a lata, procura uma lixeira, faz um pequeno arremesso civilizado e pronto — desapareceu. O guardanapo some, a embalagem some, a garrafa some, o copo rachado some. Tudo some com uma elegância admirável. A mão fica leve, a consciência se penteia, e o cidadão segue o dia com a sensação discreta de dever cumprido. O problema é que o lixo, esse personagem teimoso, tem o péssimo hábito de não desaparecer de verdade. Ele apenas muda de cenário. É uma ilusão de prestidigitação doméstica. A cidade inteira participa do número. Sacolas cruzam cozinhas como se estivessem a caminho do esquecimento. Caminhões recolhem restos com a eficiência de quem varre evidências. O saco preto, essa cortina respeitável da vida moderna, cumpre a função estética de esconder o constrangimento material do consumo. Dentro dele vai de tudo: o excesso da festa, a sobra do mercado, a compra por impulso, a embalagem da embalagem da embalagem. Fechamos o nó, depositamos na calçada e, com um gesto quase filosófico, delegamos ao mundo o trabalho de lidar com aquilo que o nosso entusiasmo produziu. O lixo é o retrato mais sincero da vida contemporânea, mas, curiosamente, continua sendo tratado como assunto secundário, quase indecoroso. Gostamos do objeto novo, da vitrine brilhando, da entrega rápida, do pacote intacto, do plástico reluzente que protege o item que veio proteger outro item. O consumo chega com trilha sonora de progresso. Já o descarte sai pelos fundos, em silêncio, como parente incômodo que a família prefere não apresentar às visitas. Compramos com alegria pública e jogamos fora com discrição estratégica. Talvez por isso o lixo ensine tanto sobre o nosso tempo. Ele revela a distância entre o prazer instantâneo e a responsabilidade prolongada. Na hora da compra, quase tudo fala de desejo. Na hora do descarte, tudo fala de consequência. Só que a consequência raramente cabe na palma da mão. A embalagem que saiu da cozinha pode atravessar ruas, alcançar córregos, entupir bueiros, boiar em rios, viajar para longe e continuar existindo com uma fidelidade quase ofensiva. O que parecia ter encerrado sua história na lixeira inicia, muitas vezes, uma carreira ambiental longa e desastrosa. Há também uma certa covardia elegante no verbo "jogar fora". Fora onde? O "fora" é um lugar misterioso, uma espécie de território imaginário inventado para tranquilizar a consciência urbana. Não existe "fora" absoluto. Existe aterro, terreno baldio, córrego, mar, encosta, rua, periferia, fumaça, solo, água. Existe o quintal do mundo, onde aquilo que saiu da nossa rotina continua trabalhando contra alguém. No fim, o lixo talvez seja menos um problema de objetos e mais um problema de imaginação moral. Enquanto acreditarmos que descartar é apagar, continuaremos confundindo distância com desaparecimento. Mas o mundo, inconvenientemente, tem memória material. O que some da mão permanece no planeta. E talvez a maturidade de uma sociedade comece exatamente quando ela entende que responsabilidade não termina no instante em que a tampa da lixeira se fecha. Fonte: Banca Examinadora.

No contexto do texto, o termo "prestidigitação" aproxima-se mais de

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