Questões de Língua Portuguesa · Vunesp

Língua PortuguesaElipse e substituição lexicalVunesp 2026

Faculdade Belavista

Questão de Língua Portuguesa

1 Toda vez que a realidade se torna insuportável, o gótico ressurge: nas passarelas, nas séries de streaming, na música, na literatura e em quase toda atividade cultural humana. Grifes como Alexander McQueen transformaram o sombrio em alta- -costura, explorando silhuetas dramáticas e uma teatralidade que flerta com o fúnebre. No audiovisual, a série Wandinha (2022), produzida pela Netflix, recolocou o imaginário gótico no centro da cultura pop com ironia e inteligência. Nada surpreendente: quando o mundo fica excessivo, a cultura encontra um jeito diferente de chamar a atenção para o que importa, como todo movimento artístico ao longo da história. O gótico surgiu no século 18 com O castelo de Otranto (1764), de Horace Walpole, e ganhou densidade psicológica no século 19 com Edgar Allan Poe, em O corvo (1845). Em O retrato de Dorian Gray (1890), de Oscar Wilde, há o horror por trás da aparência respeitável e algo que apodrece por dentro e aos poucos. Mas o motor do gótico nunca foi apenas o frio ou a atmosfera e o ambiente, mas também o medo e a desconfiança, colocando uma lupa sobre situações hipotéticas terríveis, distorcendo-as, contrapondo-as à realidade para mostrar que o horror de nossa vida política, econômica e social pode ser tão assustador quanto monstros saindo do armário. E, nesse ponto, o Brasil é um terreno fértil. Nossa literatura já experimentava essa atmosfera muito antes de qualquer tendência editorial. Álvares de Azevedo mergulhou no delírio e na morte em Noite na taverna (1855). Machado de Assis, em A causa secreta (1885), expôs a perversidade íntima com precisão. Lúcio Cardoso ergueu, em Crônica da casa assassinada (1959), um dos grandes romances góticos tropicais: uma família em decomposição lenta e uma casa que adoece junto com seus habitantes. As casas, nesse contexto, são o ponto-chave da narrativa. Elas ganham vida, conduzem personagens, revelam ou escondem fatos e (quase) sempre estão presentes como entidade. Basta que tenham cômodos trancados, móveis herdados e gente fingindo que nada aconteceu para que funcione bem. O imaginário associa o gênero a castelos, neblina, florestas e cemitérios: um clima tipicamente europeu, frio, sombrio, solitário. À primeira vista, tudo isso parece incompatível com um país tropical. Só parece. O Brasil também tem seus espaços de clausura: capela de fazenda, quarto lacrado desde a última morte e retrato velho na parede. 5 Se na Inglaterra o nevoeiro cobre o pântano, aqui a poeira vermelha sobe das estradas de terra. Se lá o corvo anuncia a morte, aqui o urubu observa em silêncio. A diferença entre o gótico brasileiro e o europeu talvez seja mais estética do que estrutural; o mecanismo interno é o mesmo. E o que vemos hoje não é exatamente um retorno do gótico, mas uma atualização. O gótico faz o que o realismo nem sempre consegue: revelar o intolerável e torná-lo plausível. Talvez o Brasil esteja redescobrindo o gótico porque ele nunca foi embora. Sempre esteve aqui, com seu jeitinho tropical. Mas ainda assim, gótico. (“Como o gótico explora o passado sombrio do Brasil”. www.nexojornal.com.br, 12.07.2026. Adaptado.)

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