Questões de Língua Portuguesa · COPS UFLA

Língua PortuguesaGêneros textuaisCOPS UFLA 2010

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Questão de Língua Portuguesa

1 Página INSTRUÇÕES: Considere o texto 2 para responder às questões 4 – 9. TEXTO 2 “SABEDORIA EM 30 PALAVRAS OU MENOS” 1 Uma coletânea do austríaco Karl Kraus mostra o poder crítico do aforismo – ou o máximo de sentido no mínimo 2 de espaço – quando nas mãos de um mestre. 3 Karl Kraus detestava conversa fiada. A acreditar nos relatos de sua vida cotidiana que transparecem de forma 4 esparsa no livro Aforismos, o escritor austríaco não tinha a mínima paciência com as pessoas que, no bonde, no trem ou 5 na mesa do café, davam início a diálogos inanes sobre o tempo. Definiu sua atitude em relação a esses tipos 6 inconvenientes em uma de suas tiradas lapidares, rara conjugação de agressividade e sutileza: “Muitos têm o desejo de 7 me matar. Muitos, o desejo de ter dois dedos de prosa comigo. Daqueles a lei me protege”. Não há lei contra os inimigos 8 de Kraus: o lugar-comum, o clichê, a ideia pronta e a opinião fácil. 9 Sua recusa de qualquer palavrório vazio não era mera tradução de um temperamento ranheta – tratava-se, sim, 10 de uma declaração ética diante de uma cultura que engendrava uma das piores catástrofes da humanidade. Kraus fez da 11 frase curta a sua forma preferida de intervenção naqueles tempos de treva. “Há escritores que já conseguem dizer em 12 vinte páginas aquilo para o que às vezes preciso de até duas linhas”. 13 O melhor meio de definir um aforismo é através de um aforismo. Eis o que diz o americano Mark Twain: “Um 14 mínimo de som para um máximo de sentido”. E o alemão Friedrich von Schlegel: “A maior quantidade de pensamento no 15 menor espaço”. Exemplos dessa arte nunca faltaram à literatura, e há mesmo máximas da Antiguidade que permanecem 16 relativamente vivas na memória atual – como “a arte é longa e a vida é breve”, atribuída ao médico grego Hipócrates, ou 17 “vaidade das vaidades, tudo é vaidade” do Eclesiastes. Cunhar frases definitivas já foi uma espécie de passatempo 18 aristocrático – na França dos séculos XVII e XVIII, grandes cultores do gênero foram nobres como o marquês de 19 Vauvenargues e o duque de La Rochefoucauld (autor de pérolas como “a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à 20 virtude”). Ao lado de escritores que burilam com afinco a brevidade, há aqueles que pontuaram obras caudalosas com 21 grandes achados aforísticos. “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira” não vem 22 de uma coletânea de frases inspiradas, mas é uma máxima irretocável. O dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues 23 gostava de repetir bordões e tiradas em suas crônicas, e muitas se consagraram até a banalização: “Toda unanimidade é 24 burra”, por exemplo, tornou-se uma unanimidade. 25 Sintética, memorizável, a máxima é sabedoria portátil. Presta-se bem a ser colecionada, e reunir aforismos já foi 26 uma arte quase tão delicada quanto cunhá-los. A prática de manter um “livro de lugares-comuns” foi costumeira entre os 27 leitores do fim da Renascença em diante, só caindo em desuso no limiar do século XX. Tomas Jefferson, um dos patronos 28 da Independência dos Estados Unidos, deixou uma coletânea dessas, e algumas de suas escolhas até hoje insuflam 29 debates entre historiadores. 30 O aforismo não é privilégio de literatos. Grandes líderes deixaram suas coleções de frases certeiras para a 31 posteridade. “Tempo é dinheiro” é uma criação típica de Franklin. Outras frases famosas são: 32 33 O ICONOCLASTA 34 “O fantasioso nega a verdade para si mesmo; o mentiroso apenas para os outros.” 35 “Faz parte da humanidade de um mestre advertir seus alunos contra ele mesmo.” 36 Friedrich Nietzsche (1844-1900) 37 “Em política, um absurdo não é obstáculo.” 38 “A melhor maneira de manter sua palavra é nunca dá-la.” 39 40 O MORALISTA 41 “Nossa inveja dura sempre mais do que a felicidade daqueles que invejamos.” 42 “Apraz aos velhos dar bons conselhos como consolo por já não estarem em condição de dar maus exemplos.” 43 44 La Rochefoucauld (1613-1680), nobre francês 45 O SENSATO 2 46 “Quem dorme com cachorros acorda com pulgas.” 47 “Peixe e visitas cheiram mal depois de três dias.” 48 Benjamin Franklin (1706-1790), inventor e homem público americano Página 49 O PROVOCADOR 50 “O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: o da imaturidade.” 51 “A pior forma de solidão é a companhia de um paulista.” 52 Nelson Rodrigues (1912-1980), dramaturgo e escritor brasileiro 53 54 Karl Kraus vem de uma linhagem diferente. Seu antecessor mais óbvio será talvez Nietzsche, filósofo com o 55 qual partilha o desprezo pela moralidade cristã, além de uma desconfiança orgânica em relação à ditadura das maiorias. 56 Misantropo militante, Kraus pode ser engraçado (especialmente em tiradas machistas como “a cosmética é a cosmologia 57 da mulher”) – mas jamais é ameno. Desprezava a imprensa e os jornalistas, não porque tivesse alma de censor, mas 58 porque detestava a coleção de clichês, às vezes inócuos, às vezes patrioteiros e belicistas que via estampados nos jornais 59 austríacos. Suspenso entre os maiores desastres humanos no século XX, Kraus deixou palavras de advertência que ainda 60 hoje guardam uma premência assustadora. Eis a última frase da coletânea recém-lançada no Brasil: “A situação em que 61 vivemos é o verdadeiro fim do mundo: a situação estável”.

Segundo o texto, é característico do aforismo ser

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