Língua PortuguesaGêneros textuaisIEL 2025
IEL RN
Questão de Língua Portuguesa
Olho para o seu olhar. Busco perceber para onde mira. Confiro se sua passada está firme o bastante para não tropeçar na travessia. Não confio nos seus joelhos. Empresto os meus. Dou o braço, finco as solas no asfalto e caminho com ela, que antes era gigante, enorme, com a cabeça sempre nublada no alto das ideias e das preocupações. Agora, pequena, frágil, assim como o seu companheiro de décadas - ontem uma tempestade, hoje garoa fina acompanhada pelo som do rádio FM. São ambos estações transitórias; ela primavera, ele outono. Os pais encolhem com o tempo. "Cada vez mais eles estão parecendo crianças", lê-se, ouve-se, vê-se por aí e por aqui tal comentário. Há quem o justifique com relatos concretos; ora, afinal já esquecem, os pais, de apagar a luz, de como manejar alguma ferramenta básica, de algumas palavras e seus significados, de manter o equilíbrio do corpo e a velocidade dos pensamentos, de aprender o novo que a cada dia se faz por meio de tecnologias, linguagem, imagens e afins. O comportamento começa a ser sempre infantilizado quando se apontam limitações e falta de preparo para viver com segurança no presente impaciente. Tudo sempre ligado ao corpo - e não à memória, lembrança, história -, como se ele, em absoluto, definisse a identidade social dos mais antigos. São corpos cansados, logo as mentes, os sentimentos e o saber também, pensam as crias, como se a corporalidade emoldurasse a grandeza da obra de uma vida toda, ainda vívida, importante ressaltar. Há quem veja por outra perspectiva menos limitante e mais constante o envelhecer dos seus e suas. O tempo cresce com os pais. Quando estudava sobre as concepções de pessoa e bases das identidades sociais de povos africanos pré-coloniais, depa- rei com a noção de senioridade dos iorubás. Em suma, o respeito às mais velhas não é fruto somente do cuidado com fragilidades físicas, em solidariedade - para não dizer piedade - com o corpo, a partir do corpo, como é frequentemente visto no ocidente. Esse respeito, que pode ser conhecido por meio de leituras não europeizadas a respeito das sociedades iorubanas, vem justamente da noção de que existe ancestralidade, sabedoria, liderança e que tais elementos não se resumem à visão ocidental de "poder, coman- do, governo, privilégio". Muito pelo contrário, trata-se de responsabilidade com seu povo, um papel fundamental para a sobrevivência das gerações. Por essa razão - e tantas outras ligadas à senioridade - o respeito às antigas e aos antigos reflete a reverência à ancestralidade e à própria comunidade em que se vive. É um respeito que está para além do corpo "debilitado". Trata-se de um respeito intangível, logo, indestrutível e atemporal. Sinto-me, por vezes, pai dos meus pais. Sou cada vez mais responsável por manter sua segurança, garantir que consigam se sustentar. E sinto-me bem, ainda que autopressionado pela necessidade de renda, moradia, acesso à saúde, qualidade de vida que tanto falta. A realidade de quem é filho cuja herança foi o "Silva Santos" em muito é essa e a felicidade não poderia revelar-se de outra maneira senão quando conseguimos dar aos nossos "velhos" algo de que precisam ou, mais do que isso, algo que eles querem. CADERNO DE QUESTÕES #9998146 - PÁGINA 1 DE 7 Mãe, vó, pai, vô, se a cada ano se tornam mais "crianças", o que nós, os ditos adultos - para eles eternos pivetes -, enxergamos diante de tal impressão? Prefiro eu o olhar de aprendizado perante quem do mundo sabe o essencial e não se curva diante das falsas complexidades impostas pela contemporaneidade. Se por "infantil" se limita apenas a percepção quanto a funções físicas de um corpo que está constantemente se transfor- mando, perde-se a oportunidade única de compreender a passagem do tempo em seres que encolhem sem perder a grandeza. Seres que fazem do tempo o paradoxo de encolher para crescer definitivamente. Toda vez que dou meu braço para que mãe se apoie enquanto atravessamos a rua, também sou eu a me sentir seguro. De repente, duas crianças, em tempos diferentes, se arriscando a viver. (SANTOS, Veny. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/venysantos/2024/04/os-pais-encolhem-com-o-tempo.shtml. Acesso em: 22 abr. 2024.) DISCIPLINA Língua Portuguesa
por um cavalo cor de vento um cavalo mais veloz que o pensamento. Quero que ele me leve para bem longe e que galope ao deus-dará que já me cansei deste engarrafamento... MURRAY, Roseana. Classificados poéticos. 4.ed. São Paulo: Moderna, 2010. DISCIPLINA Língua Portuguesa
Apesar de ser um poema, o texto apresentado possui função similar, porém lúdica, de um (a)
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.