Língua PortuguesaFiguras de sintaxe: anáfora, polissíndeto, hipérbato e elipseIF ES 2023
IF ES
Questão de Língua Portuguesa
Sérgio Rodrigues Escritor e jornalista, autor de A vida futura e Viva a língua brasileira 1 “Norma curta” é o excelente nome que o linguista Carlos Alberto Faraco dá a certo 2 conjunto dogmático de regrinhas gramatiqueiras, vetos arbitrários, apego acrítico à variedade 3 lusitana da língua e pegadinhas em geral. Repare que não falo da norma culta, registro da 4 língua de fato usado pelas camadas de maior escolaridade da população. Esta tem papel social 5 imprescindível e deveria ser ensinada com mais eficiência – não menos – na escola. 6 Me refiro à norma curta, que ninguém de fato fala, mas fingimos que sim, e que vem 7 a ser uma versão idealizada, caricatural, burra e mesquinha daquela. No fim das contas, sua 8 inimiga, pois transforma o estudo da língua portuguesa em território hostil para uma imensa 9 maioria da população. “Ai, como é difícil a nossa língua!”, dizemos quase todos. Difícil nada, 10 ou não teríamos aprendido a falá-la na primeira infância. Tem seus caprichos, como toda 11 língua, e desvelá-los carinhosamente deveria ser um prazer. Insana de tão difícil é a norma 12 curta, que tira seu sustento dessa dificuldade. [...] 13 É ela que move a indústria do português concurseiro e dos consultórios gramaticais 14 da internet. É ela que, via Enem, obriga adolescentes a encher suas redações de “outrossim” 15 e outros entulhos juridiquentos. A norma curta não quer saber se você consegue ler e 16 interpretar um texto. Que importância tem isso? Fundamental é que recite a lista das “figuras 17 de linguagem” em ordem alfabética enquanto equilibra uma bola no nariz. Vai me dizer que 18 não manja de zeugma? 19 Os estudantes capazes de memorizar os truques e evitar as armadilhas que a norma 20 curta chama de provas de português entram para um grupo privilegiado de norma-curtistas. 21 Seu esforço é então recompensado e eles, mesmo os que são incapazes de interpretar um 22 parágrafo simples, ganham o direito de oprimir outros falantes e humilhar quem não alcançou 23 o paraíso do norma-curtismo. [11] 24 A norma curta é inculta. Nunca leu Graciliano Ramos, Rubem Braga, Rachel de Queiroz 25 e tantos outros estilistas do brasileiro que, ao longo do século passado, moldaram um jeito de 26 escrever que soa como música aos ouvidos de quem nasceu aqui. Os autores 27 contemporâneos também brilham pela ausência. A norma curta nunca leu nada. Leram por 28 ela, é verdade. Isso foi muito tempo atrás: um Alexandre Herculano aqui, um Almeida Garrett 29 acolá. Todos portugueses. Nesses clássicos, leitores mortos desde o pré-modernismo 30 pinçaram arbitrariamente só o que confirmava seus dogmas. Estavam prontas – pela 31 eternidade – as tábuas da lei. 32 A norma curta engana muita gente com sua pose de defensora do “bom português”. 33 Tudo mentira. Ela ignora mais de um século de conhecimento teórico e prático sobre a 34 matéria, desprezando grandes gramáticos e zombando de nossos maiores escritores. Ontem 35 me deparei com um caso demencial de norma-curtismo: na página internética de “dicas de 36 português”, o cartum de traço fofo mostra o rapaz se declarando para a moça (“Te amo!”) e 37 sendo corrigido por ela: “Não se pode começar frase com pronome oblíquo átono”. Sim, ela 38 queria ouvir um “Amo-te!” lusitano, acredite quem quiser. A página tem quase um milhão de 39 seguidores. Me parece que estamos lascados. Adaptado de https://www1.folha.uol.com.br/colunas/sergio-rodrigues/2023/04/abaixo-a-norma- curta-do-portugues.shtml. Acesso em: 15 set. 2023.
Rodrigues pergunta Vai me dizer que não manja de zeugma?, linhas 17-18, ao mencionar as figuras de linguagem. Nesse sentido, em qual dos itens a seguir o autor se vale de outra figura que a tradição gramatical também chama de figura de sintaxe?
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

