Questões de Língua Portuguesa · PROAD UFOP

Língua PortuguesaGêneros jornalísticosPROAD UFOP 2015

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Questão de Língua Portuguesa

Machado de Assis adulterado 1 No país do ‘pelo menos’, onde é aceitável que crianças vendam balas nas ruas pois isso tem o lado bom de elas não estarem roubando, o desleixo com a educação é cada vez mais proporcional ao comodismo e à falta de preparo e de vontade para enfrentar as dificuldades. A preferência tem sido pela complacência com a baixa qualidade, com a falta de capricho e até com certas desonestidades. 2 Em vez de corrigir, perdoa-se o erro. Aceita-se o tosco e convive-se com o grosseiro, pois isso dá menos trabalho que buscar soluções que poderiam enriquecer o conhecimento, estimular a gentileza, melhorar a convivência social e ajudar a predispor as pessoas às boas práticas cidadãs. 3 Em um país assim, pode-se esperar o absurdo em várias versões. E ele quase sempre ocorre. Apesar disso, não deixa de chocar a iniciativa da escritora de livros infantis Patrícia Secco, que trocou sua missão de educar pela tarefa de produzir facilidades em vez de esforço, contornos e escapes em substituição ao aprendizado. Pior: fez isso com dinheiro público, captado pela lei de incentivos do Ministério da Cultura. 4 No mês que vem, quando a Seleção Brasileira pisar a grama da Arena Itaquerão para inaugurar os jogos da Copa do Mundo, nada menos de 300 mil exemplares de uma versão adulterada do genial conto (novela para alguns) O Alienista, obra de ninguém menos que Machado de Assis, o maior escritor brasileiro, serão gratuitamente distribuídos em todo o país em escolas e bibliotecas. 5 A escritora teve a ideia de ‘traduzir’ o texto de 1882, trocando palavras que ela e sua equipe consideram difíceis por outras que seriam mais acessíveis ao leitor atual. Ela afirma não ter visado seu público infantil, mas os jovens e adultos que, embora alfabetizados, não têm interesse pela leitura de autores clássicos simplesmente porque os textos contêm palavras que eles não conhecem. 6 Partiu, então, para uma adaptação que rouba do leitor, especialmente do menos letrado, a oportunidade de, ao se divertir com as loucuras narradas, com a leveza do texto e as finas ironias do Bruxo do Cosme Velho (como o chamava Carlos Drummond de Andrade), a chance de sair da leitura maior do que entrou. Afinal, mesmo nas histórias sem grande complexidade – como é o caso desse conto –, uma das riquezas desse nível de autor é a propriedade da narrativa, a inteligência na escolha das palavras, a elegância nas abordagens. 7 Publicar um Machado de Assis sem essas características é empurrar um faz de conta sobre quem deveria e merece ser alvo de especial atenção: o leitor inexperiente, mas potencialmente apto a avançar, a aprender 01 e, mais importante, a ampliar sua capacidade de pensar. Preferiram a autora e os gênios do Ministério da Cultura abrir mão da oportunidade de oferecer a ele anotações e até mesmo um pequeno glossário que o ajudasse a transformar escuridão em luz. 8 Em linha com a infeliz política de nivelamento por baixo, o desaforo de passar Machado de Assis a limpo vai atingir o também clássico e saboroso A pata da gazela, do cearense José de Alencar. Certamente não vão faltar aplausos, afinal, no Brasil de hoje sobram letrados que acham bobagem conhecer a diferença entre ter e possuir, haver e existir, seguir e continuar, para dar só alguns exemplos. É assim que vamos construir um país melhor, mais capaz de alcançar o progresso e a justiça social? (Estado de Minas, 14 de maio de 2014, p. 8. Opinião.) Glossário Cosme Velho: nome de um bairro do Rio de Janeiro em que morou Machado de Assis. Alienista: médico especialista em doenças mentais (uol.com.br). Editorial: artigo em que se discute uma questão, apresentando o ponto de vista do periódico, do redator-chefe ou da empresa jornalística (uol.com.br).

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