Questões de Língua Portuguesa · FACET

Língua PortuguesaInterpretação de textosFACET 2023

Pref Curral de Cima

Questão de Língua Portuguesa

Casa de farinha (Rachel de Queiroz) O maquinismo ou, mais certo, os aviamentos, têm pouca diferença do que os tapuias usavam, com os melhoramentos introduzidos pelo português colonial: a roda motora de uns dez palmos de diâmetro, com os dois veios terminais do eixo para os puxadores: um relho de couro cru serve de correia de polia, a fim de movimentar o caititu – que é um cilindro eriçado de serrilhas, destinado a ralar a mandioca. A moça cevadeira se ocupa em chegar mandioca ao caititu e a sua função é das mais difíceis, porque deve regular a pressão da raiz de encontro ao ralo de acordo com o empuxo da roda, quando os dois homens lhe dão maior impulso. E, assim, ceva-se a mandioca num ritmo alternado e não contínuo – impulso, pausa, impulso, pausa. O serviço da roda é duro; para ele, escolhem-se os rapazes de músculos mais duros e fôlego mais longo; um velhote de trinta e cinco a quarenta anos já não aguenta a roda, um frangote de dezesseis, dezoito, ainda não a aguenta; a idade ideal para os puxadores regula dos vinte aos trinta. Metade da massa ralada vai para a rede da goma, a fim de se lhe tirar o excesso de amido; em seguida segue para a prensa – imensa almanjarra de pau d’arco com um ou dois fusos (maravilhas de artesanato, feitos a enxó), onde se aperta a massa para lhe tirar o suco venenosíssimo que é a manipueira. A manipueira é tão danada que se um porco fuça no rego por onde ela escorre, não se dá meia hora está morrendo, aos gritos, tão altos que parece um cristão berrando. Da prensa vai a massa à peneira, da peneira ao forno. E o forno é a peça mais importante de uma casa de farinha: todo armado em arcos de alvenaria, tem de três a quatro metros de diâmetro, e é ladrilhado com grandes tijolos sobre os quais a farinha se torra. O mais alegre da farinhada é a roda das raspadeiras da mandioca – dez ou quinze mulheres sentadas em círculo, ocupadas em raspar a casca preta da mandioca para entregá-la ao caititu. Em torno da roda das raspadeiras forma-se o círculo mais irregular e inquieto da criançada, que sempre acompanha as mulheres do sertão, onde quer que elas estejam; e, além dos meninos, fica a terceira roda, a dos “perus”, os que não têm nada com a farinhada mas gostam de espiar. Muito namoro, muito casamento é feito e desfeito nessas rodas de farinhada, mormente quando o trabalho segue de noite adentro: a massa cevada não pode ser guardada para o dia seguinte porque azeda e arroxeia e, por isso, a última fornada tem vezes que sai depois da meia-noite, e só no último forno é que se tiram os beijus. A claridade é pouca, a luz das lamparinas é trêmula e difusa e os recantos escuros são em número muito maior que os iluminados. Quanta moça dá mau passo, quanto filho de farinhada nasce por aí – quem conhece sabe. Mas a casa de farinha, com ser lugar divertido e estimado, é hoje fábrica por tal forma primitiva e obsoleta que o plantio da mandioca atualmente só interessa aos pais de família numerosa, que dispõem de mão-de-obra abundante – e gratuita. A massa das tarefas se distribui dentro de casa – as mulheres raspadeiras, as duas lavadeiras de goma, os dois homens da roda, a cevadeira, o prenseiro, as peneiradeiras, o forneiro, o carregador d’água, os meninos que levam as raízes ou a massa dum lugar para outro – sem falar nos homens para arrancar a mandioca no roçado e os cambiteiros que andam com os jumentos a transportar a mandioca do roçado para a fábrica. Fazendeiros mais adiantados tratam de motorizar os caititus, ou pelo menos substituir a força dos homens na roda por uma bolandeira. Mas os motores são um empate de capital grande, para só funcionar poucas semanas por ano; e uma junta de bois de bolandeira, custando cada boi uma pequena fortuna, também é oneroso demais. E a farinha é cada vez mais cara e difícil; no momento em que escrevo, nas bodegas sertanejas está se cobrando o quilo de farinha por quase a metade de um quilo de carne. Dentro em pouco, só se terá para consumo a farinha industrial, produzida por usinas, como já as há no Sul. E aí, como serão os preços? Sendo que a farinha, com o feijão, é o alimento básico do sertanejo. Com feijão e farinha ele enfrenta qualquer tempo e qualquer trabalho; se tiver um pedaço de toucinho para temperar, muito bem, mas é luxo. O todo-o-dia é o feijão com a farinha pura. Esses puxadores de roda, rapazes de grande musculatura e força, andei indagando como é a dieta deles. Igual à dos outros. Levantam-se às cinco horas, tomam um gole de café preto e vão para o roçado. Às nove horas vêm em casa, comem um pouco de feijão mal cozido, salpicado de farinha seca, e voltam ao trabalho. Se o roçado é longe, não dão essa viagem, levam o que chamam um sonhim – um saquinho com rapadura e farinha, para quebrar o jejum. Entre as onze e o meio-dia, almoçam o feijão mais cozido e farinha. Em geral, não voltam ao trabalho depois disso, só algum ativo demais; ou quando dão o dia de serviço alugado. Também o sol é cruel. (Raramente trabalham aos sábados, que é dia de feira.) Das quatro para cinco horas, jantam – o mesmo feijão, a mesma farinha. Quando há rapadura, é o doce da sobremesa. E café. E pronto, comer de novo só no dia seguinte. Essa dieta melhora um pouco no tempo do legume verde, quando comem o milho assado ou cozido. E quando há fartura de milho seco, comem também o pão – que é o cuscuz cozido no vapor d’água. Carne, muito pouca – alguma galinha ou capote, um pedaço de carne de criação (carneiro ou bode); boi, pelo preço que está, uma vez na vida outra na morte. Adoram peixe, mas não pescam regularmente. Comem tudo cozido, que rende mais e ainda dá o pirão. Usam pouquíssima gordura no tempero. Ou nenhuma. Assim comem os homens no trabalho, as mulheres pejadas ou amamentando, criam-se os meninos. Em geral sadios. A mortalidade é pouca, inclusive a infantil. Morre muita criança é nas cidades, ou nos tempos de seca, quando se formam ajuntamentos insalubres e famintos de retirantes nas famosas “hospedarias” do Governo, ou nas concentrações de trabalho – açudes, estradas, etc. Sim, com esse pouco vivem, e ainda assim são fortes e, de certo modo inocente e primitivo – felizes. Mas a cada dia aquele pouco fica menos, cada dia o produto do trabalho se distancia mais dos preços de custo do indispensável. E então como será? (de O caçador de tatu) Elenco de cronistas modernos [por] Carlos Drummond de Andrade [e outros] – 21ª ed. – Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.

Assinale a opção CORRETA, de acordo com o texto:

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