Questões de Língua Portuguesa · FADESP

Língua PortuguesaPolifonia e citação de vozes no textoFADESP 2015

Pref Parauapebas

Questão de Língua Portuguesa

Ana Paula Padrão 1 No Marco Zero da cidade do Recife tive minha primeira experiência 2 emocionante de 2015. Caminhei por ali no começo da noite esperando a lua e vendo 3 as gentes felizes, em férias, ocupando a praça. Não havia tensão nem linhas divisórias 4 entre periféricos e privilegiados. Aquele era um lugar tranquilo numa cidade nem tanto. 5 O clima era ameno, a brisa vinha do mar, pessoas jogavam conversa fora e usavam o 6 espaço público como seu. De cada um. Não haveria arrastão em nenhum restaurante. 7 A polícia estava presente, mas de maneira discreta. É assim que tem que ser, pensei 8 eu. Tive saudade de cidades seguras que já conheci, de andar livre nas ruas, de não 9 ter medo de ser cidadão. Lembrei de uma praça de Barcelona e de um restaurante que 10 servia um peixe de carne branca e macia. Fizemos a refeição vendo os moradores das 11 casas em frente sentados em suas cadeiras na calçada conversando até alta noite. 12 Ninguém chamava as crianças para dentro e elas brincavam de pique-esconde até 13 suar muito e ficar com aquele cheiro de galinha molhada que toda criança tem. Parecia 14 uma vila do interior no meio de uma metrópole. 15 Um pedacinho de bairro onde o tempo não passou. Talvez por ser época de 16 férias, minhas memórias me levaram a tantos outros lugares seguros onde já estive. 17 Numa favela de Medellín que ganhou uma das estações de metrô mais modernas que 18 já conheci e uma biblioteca gigantesca e permanentemente lotada de moradores. Nem 19 tudo na cidade está livre da delinquência, mas a revolução pela qual passou a cidade é 20 notável. O ex-prefeito de Bogotá Enrique Peñalosa diz que uma cidade rica não é 21 aquela onde os pobres andam de carro, mas aquela na qual os ricos andam de ônibus. 22 Em São Paulo, quem pode se desloca em veículos blindados. Eu, que sonho com uma 23 daquelas motos pequenas, das que circulam nas ruas da Itália, me surpreendo com 24 frequência dizendo a alguém: cuide-se. Não ande distraído por aí, São Paulo é 25 perigosa. Pessoas morrem por nada, de bala perdida, atropeladas, vitimadas em 26 assaltos, as ruas não são de ninguém, nem do morador nem do Estado. Me pergunto 27 quando os homens públicos que dirigem cidades acordarão para o fato de que é nelas 28 que seus eleitores devem estabelecer suas rotinas sem sobressaltos. 29 E que isso se faz não atrás de cadeados e muros altos, mas no espaço que é 30 para o convívio de todos. Segurança é a apropriação do espaço público pelos homens 31 de bem e não pelos que se aproveitam do vácuo do poder público para roubar, 32 depredar, sequestrar. Esse era para ser um artigo sobre a gestão das cidades e 33 terminou num desabafo sobre meu sonho de bem viver. De lugares mais carinhosos 34 onde pessoas possam residir em calma. De cidades que abracem seus moradores e 35 nas quais eles possam namorar no meio da rua, levar seus filhos a parques que não 36 fiquem a mais de dez minutos a pé de suas casas, pegar um ônibus confortável e 37 chegar, mais rápido que num carro, a qualquer lugar que desejem. É uma ideia 38 romântica, mas inteiramente factível. Essa é uma das coisas que aprendi e não 39 esquecerei. A cidadania é possível e pulsa pedindo espaço na agressividade das 40 metrópoles. Disponível em: http://www.istoe.com.br/colunas-e-blogs/colunista/45_ANA+PAULA+PADRAO. Acesso em: 15 jan. 2015.

Em “o fato de que é nelas que seus eleitores devem estabelecer suas rotinas” (linhas 27-28), o pronome sublinhado retoma

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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.