Língua PortuguesaPonto e vírgula e dois-pontosFAFIPA 2026
CRC PR
Questão de Língua Portuguesa
É ouro em pó essa tal de autoestima. Quem não a tem, corre o risco de ser expulso do mundo dos vivos. A ordem é se amar — muito e para sempre. O que é algo saudável, diga-se. Gostar de si mesmo facilita bastante qualquer outro tipo de relação. Mas o que é gostar de si mesmo? Aí é que os conceitos divergem. Autoestima, até onde sei, não é se considerar melhor que ninguém, e sim estar satisfeito com a própria trajetória e ter confiança em suas escolhas, mesmo consciente de que o caminho até aqui não foi só de acertos, e nunca será. Ter autoestima é se perdoar pelo que há em si de falível e se sentir capaz de superar as próprias deficiências. Se não conseguir superar, ao menos sentir-se em paz por ter tentado. Nada muito exuberante, pois. A autoestima é uma prática franciscana. No entanto, há quem pense que ela precise gritar para aparecer. Sair pelos olhos, pela boca, pelos glúteos, pelos mamilos. Impor-se. Dar pinta. Marcar território. Viramos uma sociedade de Eus maiúsculos que já não se contentam em se gostar: é preciso se dar importância. Publicamente. Anos atrás, dei uma entrevista para a experiente Marilia Gabriela, a quem muito admiro. Na maior parte do tempo, o papo foi sobre minha carreira, sobre os livros lançados, sobre como me posiciono no mercado literário. Dei as respostas que se espera de um entrevistado — sinceras, pé no chão — mas Gabi, acostumada a um rodízio de estrelas a cada programa, não se convenceu de minha postura pouco afeita a deslumbramentos, tanto que, antes de o programa acabar, tascou uma pergunta à queima-roupa: "Por que você se tem em tão baixa estima?". Eu me acho ótima. Foi o que respondi a ela e repito aqui. Ótima. E nem me ruborizo. Mas nem por isso esqueço de que, em um contexto mais amplo, somos todos insignificantes. Houve quem achasse a pergunta agressiva. Não achei. Foi sintomática de uma época em que as pessoas desconfiam de quem não joga confetes em si mesmo. Não me considero nada modesta, e tenho plena consciência de que a coluna de hoje não deixa de ter um viés exibicionista, mas um exibicionismo a serviço de uma reflexão: por que hoje as pessoas se espantam quando alguém reconhece suas limitações tanto quanto suas conquistas? Ser realista não deveria causar tanta perplexidade. A verdadeira autoestima está em não ser competitivo e em não se promover excessivamente. "O gosto pelo extraordinário é característico da mediocridade", disse Diderot, escritor e filósofo francês. As redes sociais não favorecem a discrição, mas a importância que nos damos pode tranquilamente habitar um local silencioso, e se os seguidores não triplicarem, paciência: estranho é a gente deixar de seguir sendo quem é.
Em "Não me considero nada modesta, e tenho plena consciência de que a coluna de hoje não deixa de ter um viés exibicionista, mas um exibicionismo a serviço de uma reflexão: por que hoje as pessoas se espantam quando alguém reconhece suas limitações tanto quanto suas conquistas?", o uso dos doispontos (:) nesse trecho tem a função de:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.


