Língua PortuguesaEstratégias e tipos de argumentoCOPS UFLA 2014
UFLA
Questão de Língua Portuguesa
“Correrias, compromissos, ansiedade por estar na crista da onda, por não ser ignorado, por cumprir horários, prescrições, comandos, realmente estão nos tornando eternos angustiados e permanentes aflitos”. 1 Sempre me impressiona o impulso geral de igualar a todos: ser diferente, sobretudo ser original, é defeito. 2 Parece perigoso. E, se formos diferentes, quem sabe aqui e ali uma medicaçãozinha ajuda. 3 Alguém é mais triste? Remédio nele. Deprimido? Remédio nele (ainda que tenha acabado de perder uma 4 pessoa amada, um emprego, a saúde). Mais gordinho? Dieta nele. Mais alto? Remédio na adolescência para parar 5 de crescer. Mais relaxado na escola? Esse é normal. Mais estudioso, estudioso demais? A gente se preocupa, vai 6 virar nerd (se for menina, vai demorar a conseguir marido). 7 Não podemos, mas queremos tornar tudo homogêneo: meninas usam o mesmo cabelo, a mesma roupa, os 8 mesmos trejeitos; meninos, aquele boné virado. Igualdade antes de tudo, quando a graça, o poder, a força estão na 9 diversidade. Narizes iguais, bocas iguais, sobrancelhas iguais, posturas iguais. 10 Não se pode mais reprovar crianças e jovens na escola, pois são todos iguais. Serão? É feio, ou vergonhoso, 11 ter mais talento, ser mais sonhador, ter mais sorte, sucesso, trabalhar mais e melhor. 12 Vamos igualar tudo, como lavouras de repolhos, se possível… iguais. E assim, com tudo o que pode ser 13 controlado com remédios, nos tornamos uma geração medicada. Não todos – deixo sempre aberto o espaço da 14 exceção para ser realista, e respeitando o fato de que para muitos os remédios são uma necessidade -, mas uma 15 parcela crescente da população é habitualmente medicada. 16 Remédios para pressão alta, para dormir, para acordar, para equilibrar as emoções, para emagrecer, para 17 ter músculos, para ter um desempenho sexual fantástico, para ter a ilusão de estar com 30 anos quando se tem 70. 18 Faz alguns anos reina entre nós o diagnóstico de déficit de atenção para um número assustador de crianças. 19 Não sou psiquiatra, mas a esta altura de minha vida criei e acompanhei e vi muitas crianças mais agitadas, 20 ou distraídas, mas nem por isso precisadas de medicação a torto e a direito. Fala-se, não sei em que lugar deste 21 mundo louco, em botar Ritalina na merenda das escolas públicas. Tal fúria de igualitarismo esconde uma ideologia 22 tola e falsa. 23 Se déssemos a 100 pessoas a mesma quantidade de dinheiro e as mesmas oportunidades, em dois anos 24 todas teriam destino diferente: algumas multiplicariam o dinheiro; outras o esbanjariam; outras o guardariam; 25 outras ainda o dedicariam ao bem (ou ao mal) alheio. 26 Então, quem sabe, querer apaziguar todas as crianças e jovens com medicamentos para que não estorvem 27 os professores já desesperados por falta de estímulo e condições, ou para permitir aos pais se preocuparem menos, 28 ou ajudar as babás enquanto os pais trabalham ou fazem academia ou simplesmente viajam, nem valerá a pena. 29 Teremos mais crianças e jovens aturdidos, crianças e jovens mais violentos e inquietos quando a medicação 30 for suspensa. Bastam, para desatenção, agitação e tantas dificuldades relacionadas, as circunstâncias de vida atual. 31 Recentemente, uma pediatra experiente me relatou que a cada tantos anos aparecem em seu consultório 32 mais crianças confusas, atônitas, agitadas demais, algumas apenas sofrendo por separações e novos casamentos, 33 em que os filhos, que não querem se separar de ninguém, são puxados de um lado para o outro, sem casa fixa, um 34 centro de referência, um casal de pais sempre os mesmos. 35 Quem as traz são mães ou pais em igual estado. Correrias, compromissos, ansiedade por estar na crista da 36 onda, por participar e ser o primeiro, por não ficar para trás, por não ser ignorado, por cumprir os horários, as 37 prescrições, os comandos, tudo o que tantas pressões sociais e culturais ordenam, realmente estão nos tornando 38 eternos angustiados e permanentes aflitos. 39 Mudar de vida é difícil. Em lugar de correr mais, parar para pensar, roubar alguns minutos para olhar, 40 contemplar, meditar, também é difícil, pois é fugir do padrão. Então seguimos em frente, nervosos com nossos filhos 1 41 mais nervosos. Haja psicólogo, psiquiatra e medicamento para sermos todos uns repolhos iguais. 42 Página Fonte: LUFT, Lya. Repolhos iguais. Artigo publicado em edição impressa de VEJA, em 10 mio 2014. 43
INSTRUÇÕES: Leia o texto 2 para responder às questões de 10 a 14 TEXTO 2 1 Ação e reação. Lei da física e da vida. Saber ouvir e procurar entender as pessoas são atitudes que fazem 2 bem a quem fala e a quem escuta. Pena que essas ações e reações têm sido cada vez mais raras na sociedade 3 contemporânea. Pouco se fala e menos se escuta. A capacidade de compreensão, então, se perde em meio à falta de 4 tempo e de paciência, ao individualismo, à dificuldade em se doar e do comportamento egoísta que toma conta do 5 mundo. 6 O que fazer? Para onde correr? Quem procurar? Ir contra essa maré não é escolha fácil. Requer humildade e 7 esforço. E acima de tudo decisão para estar à disposição do outro. O que significa, muitas vezes, só ouvir e nada 8 falar, como também trocar opiniões e partilhar ideias. 9 A perda da capacidade de ouvir é também a perda da capacidade de se importar com o outro e de servi-lo. 10 As relações estão superficiais, passageiras e até mesmo o laço mais forte, o familiar, está doente de atenção, de 11 conversa e de escuta. 12 É preciso acordar diante desse comportamento que invade a sociedade e, como se a embriagasse, não a 13 deixa perceber o mal que causa. Até mesmo as novas tecnologias, inevitáveis e sinônimo da evolução do homem, 14 têm parcela de culpa nesse isolamento de que o ser humano está sendo vítima. Ou vilão? 15 Falar e ouvir são vitais à convivência, mas as mudanças nas relações sociais, de trabalho, lazer, culturais e 16 dos textos virtuais causaram uma revolução na troca entre as pessoas. Para compreender o outro, além de querer e 17 estar disponível é preciso respeito à vivência interior. 18 Fonte: MONTEIRO, Lilian. As justificativas não têm fim, mas o fato é que as pessoas estão perdendo a capacidade de ouvir. 19 Especialistas destacam a importância de querer compreender o outro. Artigo publicado em edição impressa do Estado de 20 21 22 QUESTÃO 10 Minas, em 1 jun 2014. 23 Considerando o contexto em que os fragmentos destacados entre aspas ocorrem, assinale a 24 alternativa CORRETA. 25 (A) Em “Só ouvir e nada falar” (linhas 7 e 8), a autora recomenda a escuta silenciosa como uma solução para a melhoria das relações humanas. (B) Em “Ação e reação. Lei da física e da vida” (linha 1), a autora utiliza do recurso da comparação para evidenciar a importância das capacidades de escuta e de compreensão. (C) Em “e até mesmo o laço mais forte, o familiar, está doente de atenção, de conversa e de escuta” (linhas 10 e 11), a autora responsabiliza as famílias pela falta de diálogo presente na sociedade atual. (D) Em “não a deixa perceber o mal que causa” (linhas 12 e 13), a autora culpabiliza a sociedade pelo isolamento do ser humano. 4 Página
Uma das características textuais dos gêneros do discurso jornalístico é a argumentação persuasiva. No plano argumentativo do texto, são utilizadas várias estratégias de convencimento do leitor. As alternativas constituem em estratégias argumentativas utilizadas pela autora, EXCETO:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

