Língua PortuguesaFiguras de sintaxe: anáfora, polissíndeto, hipérbato e elipseFURB 2015
ISSBLU
Questão de Língua Portuguesa
Texto IA-T1 A arte da celebração A passagem de ano não deveria pedir projetos (e posteriores remorsos), mais projetos (e mais futuros arrependimentos), e sim abrir a portinhola de algum alívio, alguma alegria. Mas talvez a gente goste de sofrer. Lembrei-me agora da deliciosa historinha do monge muito velho, quase centenário, que num remoto mosteiro pede a um monge bem moço que o ajude ainda uma vez a ir à biblioteca que guarda preciosos alfarrábios. Pela última vez, ele quer folhear uma enciclopédia ou encíclica papal, algo assim ─ a princípio, o moço não entende direito. O jovem monge instala, então, o velhíssimo velhinho junto a uma mesa imensa, tudo lá é muito grande e muito antigo. Mesa de carvalho, é claro. É um aposento secreto no fundo da biblioteca, onde só os monges iniciados entram. O rapaz consegue o livrão, coloca-o na mesa diante do velhíssimo velhinho e sai, dizendo: “Qualquer coisa, toque essa sineta que eu venho acudi-lo.” Passa-se o tempo, o jovem monge se distrai com seus afazeres, até que se lembra: e o ancião, como estará? Preocupa-se com o longo silêncio ─ será que ele morreu? Corre até o fundo da biblioteca, até a sala secreta, e encontra o velho monge batendo repetidamente a cabeça no tampo da mesa. ─ Mestre, o que houve? O senhor vai se machucar! O monge centenário chora e repete certas palavras que o moço custa a entender: ─ Imagine, imagine! A palavra de ordem, a recomendação, a essência, não era celibate*, mas celebrate**! Logicamente, em inglês a coisa tem mais graça, mas mesmo quem lê aqui há de entender: desperdiçamos tempo, vida e energia sofrendo por bobagens, arruinando as alegrias, ignorando afetos, trabalhando mais do que seria necessário para a nossa dignidade, curtindo mais o negativo do que o positivo, quando afinal a ordem divina metafórica é que não precisamos fazer o sacrifício do celibato, mas celebrar a vida. Pessoalmente, sempre acreditei que a melhor homenagem que se faz a uma divindade, se nela acreditamos, é celebrar ─ respeitando, amando, curtindo, cuidando ─ a vida, a natureza, a arte, o enigma de tudo. Mas nós, humanos, nem sempre espertos (embora a gente se ache, e muito), em vez de celebrar a passagem de ano, passamos boa parte dela nos enrolando. As providências excessivas, as compras, as comidas, as dívidas, em dezenas de prestações... Os planos. Mas para que planos, quando o melhor é ter um só? Ser mais feliz, mais alegre, mais amoroso, mais honrado, mais pacífico. [...] (LUFT, Lya. Revista VEJA, 5/1/2011. Adaptado.) *celibate (em inglês): celibato, celibatário **celebrate (em inglês): celebrar, comemorar
Em algumas passagens do texto, Lya Luft usa o recurso da enumeração, a fim de enfatizar suas ideias. Assinale a alternativa em que há um exemplo completo desse recurso:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

