Língua PortuguesaProgressão textual e organização de parágrafosFCC 2024
MPE AM
Questão de Língua Portuguesa
Atenç.ão: Leia o texto abaixo para responder às questões de números 11 a 17. Muros e lágrimas: refugiados, deslocados, migrantes 1. Dos "trabalhadores Imigrantes~ últimos operários de fábricas agora fechadas ou deslocalizadas, aos "Imigrantes ilegais~ modernos fornalhelros de um capitalismo que ambiciona ser financeiro e esconde sua criadagem; das prostitutas africanas apn'slonadas na clandestinidade de uma escravidão moderna às longas filas de refugiados apanhados em ratoeiras nas fronteiras da éuropa: é sob as formas contemporáneas da migraç~ que as sociedades ocidentais representam doravante o estrangeiro, aquele que é preciso temer e lamentar ao mesmo tempo, vigiar e proteger. 2. Desde os anos de 1980, e até o ano em que Dona/d Trump chegou ao poder, não existe mais campanha eleitora/ na éuropa ou nos éstados Unidos em que não se acene com o espectro de uma migração invasiva. O migrante estâ no centro dos temores e das fantasias suscitadas pela ameaça terrorista, transformando cada requerente de asílo em uma vítima expiatória do medo da sombra. Mas essa hipervisibl/Fdade se combina paradoxalmente com um apagamento muito real dos migrantes no espaço público. Entrevistas em uma área de descanso de autoestrada ou no desvio de uma passagem de fronteira, relegados às cozinhas dos restaurantes ou às oficinas clandestinas, escondidos atrás dos tapumes dos canteiros de obras da modernidade, constrangidos por sua própria condição a viver na sombra, os migrantes constituem uma categoria de pessoas que poucos cidadãos comuns têm a ocasião de cruzarem em sua vida cotidiana. Fora das trocas comuns se constrói, portanto, uma figura mldiátlca do migrante, uma figura de retórica política e de discurso que o coloca no centro de um vórtex emocional de medos, e mesmo de ódio, ou então de empatia e de compaixão. 3. Como um reflexo das emoç&s extremas que eles provocam, parece normal hoje considerar a migração como uma tragédia, um trauma para aquele que a efetua. Para nós tornou-se dífic11ver na migração uma expen'ência social banal, como se ela devesse ser a um só tempo crucial e determinante até o fim de suas vidas para aqueles que passaram por suas provaç&s - quase a mesma definlçAo clinica do traumatismo. 4. Essa dimensão trágica faz da migração a vertente sombria de todas as formas pelas quais o mundo moderno se pôs em movimento. O migrante é de certa forma o exato oposto do turista e do executivo intercontinental, dois personagens que apareoem nas mesmas épocas e constituem as figuras "solares· dessa mobilidade em vias de banalfzação. Raramente percebida como uma oportunidade, uma aventura, ou mesmo simplesmente uma banal peripécia, a migração é Interpretada como um acidente, um drama, e até um delfto. é mais: é com a condição de ser uma tragédia que ela existe como objeto político, Isto é, ao mesmo tempo como objeto de deslgnaçAo, de discurso e de govemança. Em suma, existe uma relação estreita entre a construção da migração como tragédia, seu formato emocional e seu tratamento como objeto político. 5. A narrativa política se,ve-se de uma confusão entre o que desencadeia os movimentos mlgratón'os e a realidade da experiência que começa pela viagem migratória. Das grandes tragédias que são as guerras ou os desastres a essas pequenas tragédias familiares que são os destinos despoticamente atribuídos pelos pais aos filhos, é evidente que a migração nasce muitas vezes de uma tragédia original, mas á qual ela oferece uma salda, uma oportunidade de reslsténcía e de salvação. É essa dimensão que a narrat.lva política esconde, e que ao contrário é objeto das narrativas Intimas: na abundante literatura etnográfica ou jomallstlca dominada pelos relatos de vida realistas, a migração é conduzida pela esperança de escapar a uma situaç~ que era, de múltiplas maneiras possíveis, uma negação de ser. E na grande maioria de casos, essa esperança se reali:za. 6. Portanto, é entre esses do.is regimes narrativos, o polltico de uma tragédia e de uma ameaça de um lado, o biográfico de uma salvaç~ do outro, que se constrói a carga emocional da experiência migratória contemporánea. (Adaptado de: PERALDI. Michel. ln: CORBIN, A.. COURTINE. J.J.; VIGARELLO, G. (Orgs.) História das emoç6es 3: do final do século XIX até hoje. Traduçao de Malra Ferreira. Petrópolis. Vozes, 2020. p. 364~)
No 3!!. parágrafo, o autor
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

