Questões de Língua Portuguesa · FADESP

Língua PortuguesaExpressões idiomáticas e provérbiosFADESP 2014

CM Canaã dos Carajás

Questão de Língua Portuguesa

Bruxas não existem Moacyr Scliar 1 Quando eu era garoto, acreditava em bruxas, mulheres malvadas que 2 passavam o tempo todo maquinando coisas perversas. Os meus amigos 3 também acreditavam nisso. A prova para nós era uma mulher muito velha, uma 4 solteirona que morava numa casinha caindo aos pedaços no fim de nossa rua. 5 Seu nome era Ana Custódio, mas nós só a chamávamos de "bruxa". 6 Era muito feia, ela; gorda, enorme, os cabelos pareciam palha, o nariz 7 era comprido, ela tinha uma enorme verruga no queixo. E estava sempre 8 falando sozinha. Nunca tínhamos entrado na casa, mas tínhamos a certeza de 9 que, se fizéssemos isso, nós a encontraríamos preparando venenos num 10 grande caldeirão. 11 Nossa diversão predileta era incomodá-la. Volta e meia invadíamos o 12 pequeno pátio para dali roubar frutas e quando, por acaso, a velha saía à rua 13 para fazer compras no pequeno armazém ali perto, corríamos atrás dela 14 gritando "bruxa, bruxa!". 15 Um dia encontramos, no meio da rua, um bode morto. A quem 16 pertencera esse animal nós não sabíamos, mas logo descobrimos o que fazer 17 com ele: jogá-lo na casa da bruxa. O que seria fácil. Ao contrário do que sempre 18 acontecia, naquela manhã, e talvez por esquecimento, ela deixara aberta a 19 janela da frente. Sob o comando do João Pedro, que era o nosso líder, 20 levantamos o bicho, que era grande e pesava bastante, e com muito esforço nós 21 o levamos até a janela. Tentamos empurrá-lo para dentro, mas aí os chifres 22 ficaram presos na cortina. 23 - Vamos logo - gritava o João Pedro -, antes que a bruxa apareça. E ela 24 apareceu. No momento exato em que, finalmente, conseguíamos introduzir o 25 bode pela janela, a porta se abriu e ali estava ela, a bruxa, empunhando um 26 cabo de vassoura. Rindo, saímos correndo. Eu, gordinho, era o último. 27 E então aconteceu. De repente, enfiei o pé num buraco e caí. De 28 imediato senti uma dor terrível na perna e não tive dúvida: estava quebrada. 29 Gemendo, tentei me levantar, mas não consegui. E a bruxa, caminhando com 30 dificuldade, mas com o cabo de vassoura na mão, aproximava-se. Àquela altura 31 a turma estava longe, ninguém poderia me ajudar. E a mulher sem dúvida 32 descarregaria em mim sua fúria. 33 Em um momento, ela estava junto a mim, transtornada de raiva. Mas aí 34 viu a minha perna, e instantaneamente mudou. Agachou-se junto a mim e 35 começou a examiná-la com uma habilidade surpreendente. 36 - Está quebrada - disse por fim. - Mas podemos dar um jeito. Não se 37 preocupe, sei fazer isso. Fui enfermeira muitos anos, trabalhei em hospital. 38 Confie em mim. 39 Dividiu o cabo de vassoura em três pedaços e com eles, e com seu cinto 40 de pano, improvisou uma tala, imobilizando-me a perna. A dor diminuiu muito e, 41 amparado nela, fui até minha casa. "Chame uma ambulância", disse a mulher à 42 minha mãe. Sorriu. 43 Tudo ficou bem. Levaram-me para o hospital, o médico engessou minha 44 perna e em poucas semanas eu estava recuperado. Desde então, deixei de 45 acreditar em bruxas. E tornei-me grande amigo de uma senhora que morava em 46 minha rua, uma senhora muito boa que se chamava Ana Custódio. Disponível em: http://revistaescola.abril.com.br/fundamental-1/bruxas-nao-existem-689866.shtml. Acesso em: 5 abr. 2014.

O provérbio que se pode aplicar à situação relatada no texto é

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