Questões de Língua Portuguesa · FCC

Língua PortuguesaPolifonia e citação de vozes no textoFCC 2010

SEDUC SP

Questão de Língua Portuguesa

Atenção: As questões de números 58 a 64 referem-se ao texto a seguir, adaptado de conferência proferida por um pesquisador em um encontro científico. A apresentação oral foi gravada, transcrita, editada e publicada em livro. 1 O IPHAN promoveu recentemente um grande seminário para discutir o que, dentre as línguas minoritárias existentes no Brasil, deveria ser registrado. Estava lá uma negra, a Dona Fiota, falante da Gira da Tabatinga. Ela contou que seu pai, passando pelo Centro-Oeste de Minas Gerais, viu sua mãe no cativeiro trabalhando, fiando algodão. Acenou para ela e perguntou se não arrumava uma 5 ocupação para ele. Acabou conseguindo um serviço na roça de mandioca, foi ficando e namorando, ficando e namorando, até que os dois se casaram, tiveram filhos, netos, bisnetos. A comunidade deles falava a Gira da Tabatinga, que era usada nas antigas senzalas das fazendas do interior de Minas Gerais. Com ela, os escravos podiam se comunicar livremente, sem o patrão entender o que diziam. A língua era um espaço de liberdade. 10 Ela contou que os quilombolas descobriram que a Gira da Tabatinga não estava mais sendo falada pelas crianças. Deste modo, soou o sinal de alarme: “Língua em perigo.”. Quando a criança não fala mais, em uma geração a língua se perde. A comunidade então se reuniu e decidiu: “Vamos ensinar na escola a língua da Tabatinga. Vamos falar com o secretário municipal”. E o secretário disse: “Pode escolher a professora que eu pago”. A comunidade então se perguntou quem era o 15 Antônio Houaiss da Gira da Tabatinga. “A Dona Fiota!”. Dona Fiota foi escolhida, deu aula lá e no final do mês foi receber seu salário. Chegando na Secretaria Municipal, o secretário disse: “Ah, é a senhora? Eu não posso pagar a senhora! Se fizer isso, vou preso. A senhora é analfabeta. Como vou pagar um professor que não sabe nem ler, nem escrever?”. E ela pôs o dedo na cara dele: “Eu não tenho a letra, eu tenho a palavra”. (Adaptado de BESSA-FREIRE, José Ribamar. Nheengatu: a outra língua brasileira. In Stolze Lima & Carmo (Orgs.). História social da língua nacional. Rio de Janeiro: Edições Casa de Rui Barbosa, 2008, p. 142) Obs.: IPHAN = Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional 19

Considere os seguintes comentários acerca de trechos do texto que contêm discurso direto. I. E ela pôs o dedo na cara dele: “Eu não tenho a letra, eu tenho a palavra”: por meio da descrição de um gesto, insinua-se um tom para a fala que será citada. II. “A Dona Fiota!”: o emprego das aspas, após enunciado que reporta o que a comunidade se perguntou, indica que o fragmento constitui uma resposta. III. Deste modo, soou o sinal de alarme: “Língua em perigo.”: embora o locutor não esteja explicitado, só se pode atribuir o que foi dito a Dona Fiota. Está correto o que se afirma em

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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.