Questões de Língua Portuguesa · Marinha

Língua PortuguesaComposiçãoMarinha 2011

Marinha

Questão de Língua Portuguesa

A fala sob suspeita. Durante séculos, só as línguas com tradição escrita eram dignas de comentário. Na Antiguidade, os gregos tachavam de bárbaras todas as línguas diferentes do grego, a ponto de o gênio curioso de Aristóteles, que chegou a descobrir detalhes anatômicos em estrelas-do-mar, pouco dedicar-se à linguagem, a não ser em sua Poética, e calar-se sobre a língua de seus vizinhos trácios, dos ilírios, dos epirotas. Na Idade Média, até o renascimento carolíngio, achavam pouco importante a pronúncia, as palavras e as expressões faladas: o latim reinou soberano durante um milênio e as línguas vernáculas, ou seja, próprias dos territórios conquistados, não serviam bem para a expressão do saber científico, para a Bíblia e para o campo jurídico: eram mais adequadas à literatura, ou seja, ao tempero da vida, não à sua essência. Com o Humanismo, tudo muda: um certo nacionalismo pregava o orgulho da origem latina e também a beleza do vernáculo. Surge a primeira gramática do português, em 1536, em que o autor, Fernão de Oliveira, proclama que, diante do expansionismo lusitano, é tempo de Portugal ensinar português a Guiné, fato que declara melhor do que ser ensinado por Roma, cujo império já não existe. No fim daquele século, surgem os ortógrafos, entre eles, Duarte Nunes Leão, que defenderá a grafia etimológica, mais próxima da origem das palavras. O português passa a ser escrito com ph, th, y etc. Nunes de Leão recusa os acentos, pois diz que eles são apropriados ao grego. A polêmica da melhor ortografia vai até o século 20 e, mesmo assim, a despeito do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990), ainda hoje há grafias distintas em alguns países lusófonos. A linguística estruturalista (sobretudo após a década de 50) afirmava categoricamente que, por vir a fala antes da escrita, aquela é superior a esta: as crianças aprendem a falar primeiro e depois a escrever, há muitas línguas ágrafas no planeta etc., mas fato é que não só a fala influencia a escrita como a escrita influencia a fala, senão o que justificaria pronúncias como tóchico, adqüiriu ou qüestão? Que dizer do par quatorze e catorze? Ora, fala e escrita têm tradições independentes. Ambas são instituições distintas, com histórias diferentes, não há hierarquia entre elas. Outra prática antiga e ainda muito viva, embora muito preocupante, é usar-se da escrita para revelar os preconceitos. Assim, transcrevendo alguém de classe social menos favorecida ou alguém da zona rural, grafam-se enunciados como qui é qui esse ome qué comê?. Em entrevistas, muitas vezes, o entrevistador (diferentemente do entrevistado) parece pronunciar todos os r de infinitivos e nunca confundir e final com i, nem o final com u. Quanta ilusão e quanto preconceito nesse tipo de transcrição! Praticamente todos os brasileiros, de todas as classes sociais e de qualquer região, cometem alguns desses desvios numa fala espontânea e informal. O mais evidente do preconceito se evidencia quando não se transcreve o h de homem: um erro comum na escrita de pessoas pouco (ou mal) escolarizadas, que transpareceria em sua pretensa fala peculiar? Acaba-se voltando, assim, àquele desprezo milenar pelos iletrados. Mário Eduardo Viaro. Revista Língua Portuguesa - Ano I - Número 5 - 2006 - com adaptações.

Assinale a opção cuja referência entre parênteses, relacionada ao termo/expressão em destaque, está INCORRETA.

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