Língua PortuguesaInterpretação de textosCom Exam Pref Bauru 2017
Pref Bauru
Questão de Língua Portuguesa
Leia atentamente o texto extraído da obra “O senhor embaixador” de Érico Veríssimo para responder as questões. O senhor embaixador Por aqueles dias, Gabriel Heliodoro recebeu uma carta confidencial do Presidente Carrera, dentro dum envelope lacrado. Meu querido compadre: A situação aqui não anda boa. Como sabes, conforme determina a Constituição, temos de fazer eleições presidenciais em novembro deste ano. Pensei que estava preparado para entregar o Governo ao meu sucessor legal e retirar-me definitivamente para a minha granja de Los Plátanos, pois ando meio doente e muito cansado. Infelizmente minha missão não está ainda cumprida, quero deixar pelo menos começadas as grandes obras da estrada trans-sacramentenha, e terminados muitos outros empreendimentos que já iniciei. Por outro lado não acho que nosso país esteja preparado para resistir às comoções dum pleito presidencial. Dizem que o diabo sabe muito mais por ser velho do que por ser diabo. Pois este teu compadre, raposa velha, anda farejando algo no ar. Sinto uma certa inquietação não só na Universidade, entre professores e estudantes, como também nas ruas e até nas camadas mais altas da nossa sociedade. Reuni anteontem o Ministério para indagar em que pé se encontrava a sugestão que fiz há tempos de encaminhar ao Congresso um projeto de emenda à Constituição que permita a minha segunda reeleição. Tinham-me garantido que a emenda seria aprovada até princípios de março último, o mais tardar. Estamos quase em maio e até agora, nada! O Ministro do Interior me disse que, na sua opinião e na da maioria de seus companheiros de Ministério, a discussão dessa emenda seria uma coisa perigosa, pois iria acirrar os ânimos e oferecer às esquerdas um pretexto para começar a agitação. Perdi as estribeiras e gritei um par de desaforos ao Allende, que ficou vermelho, baixou a cabeça mas não disse palavra. Quando lhe perguntei, por pura ironia, se os ilustres ministros já tinham escolhido um candidato à minha sucessão, respondeu que sim. Imagina tu quem! O Dr. Ramón Tejera, presidente do Supremo Tribunal! O Allende entrou numa lenga-lenga, disse que se trata dum cidadão culto e íntegro, figura respeitável de magistrado, homem apartidário, capaz de conquistar a confiança da maioria do eleitorado. Perdi de novo a paciência e berrei: "O Dr. Tejera pode ser mas é candidato a um asilo de velhos! Tem quase oitenta anos. Vocês estão doidos!" Ninguém reagiu. O que eles querem é um presidente-títere que esses fazendeiros, banqueiros e industriais possam manejar a seu bel-prazer. Sabem que comigo não podem fazer isso. Agora vejo que tinhas razão quando me dizias que estou cercado de gente desleal. É o cúmulo! Haviam já articulado uma candidatura sem me consultarem, e viviam me engambelando com a promessa de conseguirem a aprovação da emenda. Que providências tomar, então, para evitar que este país caia nas mãos dos comunistas ou dessa plutocracia sacramentenha que no fundo nunca me aceitou, nunca se conformou de ser governada por um homem de origem humilde como eu? O remédio, me parece, ê um novo golpe de Estado. Conferenciei ontem sigilosamente com o Ministro da Guerra, que pensa como eu e me garante o apoio total e incondicional do Exército. Temos de agir antes de novembro, mas precisamos, como bem sabes, dum bom pretexto para fechar o Congresso e decretar o estado de sítio. Afinal temos de levar em conta a opinião mundial e principalmente a dos Estados Unidos e a da O.E.A. Almocei ontem aqui no Palácio com o embaixador americano e com o arcebispo, e tu bem podes imaginar por que convidei essas duas figuras. Sondei o gringo, que tem ar de bobo, mas ê matreiro, e cheguei à conclusão de que ele também quer me ver pelas costas. Perguntei a Don Pânfilo, sem mais rodeios, qual era a sua opinião sobre a emenda. O homem fez um discurso muito bonito, com aquela habilidade e aquela elegância que conheces, mas desconversou. É natural que o arcebispo queira ver no Governo um papa-hóstias como o Dr. Tejera, que vai todos os domingos à missa. Assim sendo, compadre, o remédio é esperar que os agitadores botem a cabeça de fora para agirmos. Se não botarem, antes de novembro, seremos obrigados a inventar um novo plano subversivo e assustar mais uma vez com o fantasma do comunismo tanto o Departamento de Estado como essa classe que teu "amigo" Grís, esse crápula apátrida, chama de "oligarquia rural". O diabo é que qualquer comoção político-social nesta hora poderá prejudicar esse negócio do empréstimo. Não preciso repetir que o sonho da minha vida é deixar pelo menos começada a trans-sacramentenha, e que eu seria o homem mais feliz do mundo se essa rodovia viesse a ter o meu nome. Manda-me com a possível brevidade tua opinião sobre todos estes problemas. Às vezes me arrependo de ter-te mandado para a nossa Embaixada em Washington. És dos poucos homens de cuja lealdade e amizade não duvido nem nunca duvidei. Mas vai ficando por aí, por enquanto, e trata de desencavar esse empréstimo, que é vital para nossa terra. Quanto ao mais, vamos deixar o barco correr. Confio na minha boa estrela. Antes de novembro, encontraremos um bom pretexto para o golpe. Autorizo-te a mostrar esta carta ao Ugarte e a mais ninguém. O melhor será depois queimar estas páginas. Sempre tive horror a coisas escritas. Recebe um abraço afetuoso do velho amigo e compadre Juventino VERÍSSIMO, Érico. O senhor embaixador. 20. Ed.. São Paulo: GLOBO, 1997, p.165-167
Releia o trecho: “Sinto uma certa inquietação não só na Universidade, entre professores e estudantes, como também nas ruas e até nas camadas mais altas da nossa sociedade.” Nesse trecho, o termo em destaque evidencia um efeito de sentido que
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.
