Língua PortuguesaDerivaçãoReis e Reis 2023
Pref SF Sales
Questão de Língua Portuguesa
Rio de Janeiro, junho de 1951. Senhor Prefeito do Distrito Federal Eu sou um desses estranhos animais que têm por “hábitat” o Rio de Janeiro; ouvi-me, pois, com o devido respeito. Sou um monstro de resistência e um técnico em sobrevivência – pois o carioca é, antes de tudo, um forte. Se, às vezes, saio do Rio por algum tempo para descansar de seus perigos e desconfortos (certa vez inventei até de ser correspondente de guerra, para ter um pouco de paz) a verdade é que sempre volto. Acostumei-me a viver perigosamente. Não sou covarde como esses equilibristas estrangeiros que passeiam sobre fios entre os edifícios. Vejo-os lá de cima, longe dos ônibus e lotações, atravessando a rua pelos ares e murmuro: eu quero ver é no chão. Também não sou assustado como esse senhor deputado Tenório Cavalcante, que mora em Caxias e vive armado; moro no paralelo 38, entre Ipanema e Copacabana e, às vezes, nas caladas da noite, percorro desarmado várias boates desta zona e permaneço horas, dentro da penumbra, entre cadeiras que esvoaçam e garrafas que partem docemente na cabeça dos fieis em torno. E estou vivo. Ainda hoje tenho coragem bastante para tomar um ônibus ou mesmo uma lotação e ir dentro dele até o centro da cidade. Vivo assim, dia a dia, noite a noite, isto que os historiadores do futuro, estupefatos, chamarão de Batalha do Rio de Janeiro. Já fiz mesmo várias viagens na Central. Eu sou bravo, senhor. Sei também que não me resta nenhum direito terreno, respiro o ar dos escapamentos abertos e me banho até no Leblon, considerado um dos mais lindos esgotos do mundo; aspiro o perfume da curva do Mourisco e a brisa da Lagoa e – sobrevivo. E compreendo que, embora vós administreis à maneira suíça, nós continuaremos a viver à maneira carioca. Eu é que não me queixo; já me aconteceu escapar de morrer dentro de um táxi em uma tarde de inundação e ter o consolo de, chegando em casa, encontrar a torneira perfeitamente seca. Prometeste, senhor, acabar em 30 dias com as inundações no Rio de Janeiro; todo o povo é testemunha desta promessa e de seu cumprimento: é que atacaste, senhor, o mal pela raiz, que são as chuvas. Parou de chover, medida excelente e digna de encômios. Mas não é para dizer isso que vos escrevo. É para agradecer a providência que vossa administração tomou nestas últimas quatro noites, instalando uma esplêndida lua cheia em Copacabana. Não sei se a fizestes adquirir na Suíça para nosso uso permanente, ou se é nacional. Talvez só possamos obter uma lua cheia definitiva reformando a Constituição e libertando Vargas. Mas a verdade é que o luar sobre as ondas me consolou o peito. E eu andava muito precisado. Obrigado, senhor. Rubem Braga (Rubem Braga. Para gostar de ler. São Paulo, Editora Ática, 2002)
Assinale a alternativa em que o processo de formação da palavra destacada está incorreto:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.


