Questões de Língua Portuguesa · CEFETBAHIA

Língua PortuguesaAspas, travessão e parêntesesCEFETBAHIA 2006

TJ BA

Questão de Língua Portuguesa

Dentre as mistificações alimentadas pelo chamado neoconservadorismo, talvez a mais perigosamente infundada seja a do triunfo da democracia como regime de governo contemporâneo por excelência e inexorável ao desenvolvimento das nações. A alegação de que nunca houve tantos governantes empossados através de algum método de sufrágio, embora historicamente plausível, apenas ressalta os limites práticos dessa aparente conquista: cálculos aproximados sugerem que 5 cerca de 3,5 bilhões de pessoas (60 por cento da população mundial) ainda vivem sob variadas formas de totalitarismo. A estimativa parece tolerável porque associada a algumas nações extremamente populosas, com governos abertamente ditatoriais, ou a redutos de miséria absoluta, institucionalmente rudimentares. Entre a China e o Burundi, entretanto, existem dezenas de países geopoliticamente relevantes, inclusive potências regionais, cujos epítetos regimentais escondem realidades pouco alvissareiras para os preceitos democráticos consagrados. 10 A Índia, república parlamentarista, mantém a estratificação em castas que perpetua desigualdades, não apenas sociais, mas legais e eleitorais. O vizinho Paquistão é governado pelo general Pervez Musharraf, que se “elegeu” graças a manobras jurídicas e ao exílio de Benazir Bhutto, sua principal antagonista. O ditador egípcio, Hosni Mubarak, há mais de duas décadas no poder, controla rigidamente a Suprema Corte e a Comissão Eleitoral. Os gigantes petrolíferos do Golfo Pérsico nem sequer dissimulam suas autocracias […]. A África é prodigiosa em líderes dados à perseguição de opositores […]. Nos Bálcãs 15 pós-genocídio, o ultranacionalista Partido Radical sérvio retomou o poder e Kosovo tem como primeiro-ministro um suspeito de crimes de guerra (Ramush Haradinaj). Há ainda regiões cuja instabilidade desautoriza qualquer simulacro de escolha popular. Iraque, Afeganistão, Haiti e Sudão, por exemplo, vivem sob guerras civis reais ou iminentes. Nas repúblicas da antiga União Soviética, os levantes se sucedem, derrubando governos frágeis […] para substituí-los por outros similares. A democracia é mais periclitante em nações advindas de longos períodos autoritários que tiveram respaldo das potências 20 mundiais. O final da Guerra Fria provocou uma passagem meramente formal de regimes despóticos a economias inseridas no mercado globalizado. Para apaziguar tanto o público interno quanto a comunidade internacional, o sufrágio virou componente legitimador de estruturas sociopolíticas viciosas. A diplomacia unilateralista dos EUA endossa e agrava tal paradoxo, disseminando uma cantilena pseudolibertária que utiliza os poderios militar e financeiro ao sabor de conveniências estratégicas. Carente de ameaças que a corroborem, a ingerência civilizadora insufla uma reação popular que, sob 25 motivações étnicas e religiosas outrora sufocadas, se transforma em repúdio a valores identificados como norte-americanos. Eis como o neoconservadorismo, doutrina da hegemonia estadunidense, se locupleta do próprio ciclo de intolerância e violência que simula combater. SCALZILLI, Guilherme. As ilusões democráticas. Caros amigos. São Paulo: Casa Amarela, ano X, n. 109, p. 38, abr. 2006. Edição de aniversário.

(Peso 2) A função exercida pelos parênteses da linha 16 – (Ramush Haradinaj) – é a mesma das vírgulas que destacam o termo

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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.