Língua PortuguesaInterpretação de textosIUDS 2019
Pref Nova Iguaçu
Questão de Língua Portuguesa
Texto I – O medo de ontem e o de hoje O legado da escravidão. Que significa para o Brasil, hoje, ter tido escravos? O historiador baiano João José Reis responde: “Não acho que todos os problemas brasileiros, inclusive de relações entre as classes, tenham a ver com a escravidão. Mas o fato é que tivemos quase 400 anos de História em que os mais afortunados se acostumaram à noção de que os outros podem ser torturados. Isso pesa”. O historiador Manolo Garcia Florentino responde: “A escravidão foi a base a partir da qual se fundou uma civilização, retomando Sérgio Buarque de Holanda, para quem o Brasil, por sua complexidade e diversidade, era uma civilização. Ela fundou a civilização brasileira. E ao fazê-lo viabilizou um projeto excludente, em que o objetivo das elites é manter a diferença com relação ao restante da população”. O historiador Luiz Felipe Alencastro: “A escravidão legou-nos uma insensibilidade, um descompromisso com a sorte da maioria que está na raiz da estratégia das classes mais favorecidas, hoje, de se isolar, criar um mundo só para elas, onde a segurança está privatizada, a escola está privatizada, a saúde”. Hoje, a maioria não se lembra da escravidão no Brasil senão esporadicamente, vagamente. E em termos esquemáticos: Zumbi, o herói, ou o negro afortunado, o senhor desalmado ou a sinhazinha boazinha com o pessoal da senzala. A realidade foi mais complexa. Os historiadores, hoje, revelam um escravo que podia reunir na mesma pessoa o acomodado e o insubmisso. E um senhor que, embora na condução de um projeto arcaico e arcaizante, soube levá-lo avante. Não é uma originalidade brasileira esquecer a História. Outros povos também a esquecem, especialmente seus pedaços ruins. A França não gosta de lembrar que boa parte da sua população colaborou com o nazismo. Os povos africanos não gostam de lembrar que também escravizaram, para uso próprio e para exportação. Para os Estados Unidos, a escravidão é um espinho encravado na garganta. A revista The New Yorker, reduto do melhor pensamento americano, dedicou um número aos negros dos Estados Unidos. No artigo de apresentação, os editores recordam que dentro do “mito” americano, aquele de que o país foi construído sob o signo da justiça e da igualdade, paladino da liberdade, refúgio de oprimidos de todas as partes, dentro daquilo que conforma o sonho americano, enfim, estava embutido um pesadelo. Ao Brasil, os últimos negros chegaram em 1850, ano em que terminou o tráfico. O historiador Flávio dos Santos Gomes, autor de Histórias dos Quilombolas, em que conta o episódio de Vassouras, é negro, e conseguiu retraçar a trilha de seus ancestrais até 1743. Quantas famílias brasileiras brancas são tão antigas? Se antiguidade é credencial para pretensões de nobreza e propriedade, aos negros brasileiros, deveria caber mais do que lhes tem cabido, na sociedade brasileira. Esquecer o passado, antes que uma anormalidade, é a regra, entre os povos, mas traz um problema: faz com que nos conheçamos menos [...]. Procura-se desvendar o país esquadrinhando seus sucessos e percalços neste século, mas as explicações mais profundas talvez se situem em períodos anteriores. Encare-se a escravidão e a maneira como ela contaminava a sociedade brasileira como um todo, não só a relação senhor-escravo. Um retrato do Brasil pode começar a emergir. Falar de legado da escravidão, hoje, no Brasil, é falar da pobreza. Da miséria. Ou, para usar uma palavra mais atual - e apropriada -, da exclusão. Nem tudo tem a ver com a escravidão. Isso é simplismo. Também não somos iguaizinhos ao que éramos na época da Colônia e do Império. Isso é mais simplismo ainda. Mas pode ser útil, para entender o Brasil do presente, acompanhar o raciocínio de Manolo Florentino, quando faz a seguinte afirmação: “O tráfico foi o maior negócio de importação brasileiro até 1850. Comprar pessoas para estabelecer diferenças foi o principal empreendimento deste país”. O sonho americano, como lembrou a revista The New Yorker, era uma sociedade democrática e igual. Já o projeto brasileiro, segundo Florentino, era (e é?) uma sociedade de diferentes. Os poderosos precisavam (precisam?) ter quem se situe embaixo para se sentir mais poderosos e livres. O sonho democrático americano é embaralhado e atazanado pela existência dos escravos. Já o projeto brasileiro é por eles completado e viabilizado. O projeto brasileiro é arcaico e arcaizante, mas atenção: é exitoso. Só que o êxito tem um preço. Uma parte desse preço é aquele medo que se apossou de Vassouras, depois da fuga da escravaria da Fazenda Freguesia, ou de Salvador e um pouco por toda parte no Império, depois da Revolta dos Malês, e que foi num crescendo, até que às vésperas da abolição era um sentimento generalizado. É simplismo pensar que somos iguais ao que fomos, mas, sem esquerdismos nem populismos, talvez não seja absurdo pensar que o medo é feito do mesmo material do que aquele que ocorre ao percorrer hoje uma rua do Rio de Janeiro, à noite. Roberto Pompeu de Toledo. Revista Veja, ed. 1.444, 15/05/1996. Excerto adaptado.
Da leitura do texto I, infere-se que, na “civilização brasileira”, valores e interesses individuais desfavorecem a preservação de direitos sociais, pois:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.
