Questões de Língua Portuguesa · CCCP (IFSC)

Língua PortuguesaVariação linguísticaCCCP (IFSC) 2009

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Questão de Língua Portuguesa

2 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Catarina Concurso Público – Edital 011/2009 – Prova Objetiva O texto a seguir foi publicado no caderno Ilustrada da Folha de São Paulo, em 20 de julho de 2003. Leia-o com atenção para responder as questões 04, 05 e 06. A proibição da língua brasileira : K ^ ^ K h D Z d / E ^ MATÉRIA PUBLICADA na Ilustrada palavras transformadas em “quin- Uma vez que as crianças escrevem de 18 de junho dava conta de que uma tá”, “animá”, “falá”, “dizê”, “fugi”. como falam, não é raro que acrescennota da Anatel, de agosto de 2002, Dificuldades também havia para tem de preferência um “r” às palavras sobre um programa radiofônico da FM pronunciar as consoantes dobradas. oxítonas, a letra usada como acento Educativa, de Campo Grande (MS), Daí que, no dialeto caipira, “orelha” agudo: “ater”, em vez de “até”; “Jotransmitido na língua nheengatu, tenha se tomado “oreia” (uma ser”, em vez de “José”. Algo que tem levantava a questão da sua legalidade consoante em vez de três; quatro sua curiosa legitimidade no modo em face de uma lei de 1963 que proíbe vogais em vez de três), “coalho” seja como se escrevia oficialmente o veiculações radiofônicas em língua “coaio”, “colher” tenha virado “cuié”, português até meados do século 19, estrangeira. A dúvida da Anatel põe “os olhos” sejam “o zóio”... E no letras fazendo as vezes de acentos e em questão a legalidade da língua Nordeste ainda se ouve a suave “fulô” sinais. A própria língua falada, no ainda falada por brasileiros de várias no lugar da menos suave “flor”. Uma confronto com a escrita, oferece às regiões do país e em suas variantes abundância de vogais em detrimento crianças inteligentes a chave de adapresiduais ainda falada por milhões de das consoantes, até mesmo com a tação de uma à outra: se elas dizem brasileiros, especialmente crianças e introdução de vogais onde não “falá” e vêem que a palavra escrita é iletrados, que só aparentemente falam existiam. Exatamente o contrário da “falar”, logo entendem que o “r” é aí o português oficial dos decretos. evolução da sonoridade da língua em acento, e não letra para ser O nheengatu, também conhecido Portugal, em que predominam os pronunciada. como “língua geral”, a língua que se ásperos sons das consoantes. No É comovente a reação dos joquer proibir, é a verdadeira língua Brasil, a língua portuguesa ficou mais vens quando descobrem que são nacional brasileira. O nheengatu foi doce e mais lenta, mais descansada, falantes do que resta de uma língua desenvolvido pelos jesuítas nos justamente pela enorme influência das que já foi a língua do povo brasileiro séculos 16 e 17, com base no vocabu- sonoridades da lário e na pronúncia tupi, que era a nheengatu. língua das tribos da costa, tendo como língua geral, o e que conhecem um grande número de sons e palavras tupi. O que lhes dizem ser erro e ignorância é, na “Somos um povo bilíngüe, e o referência a gramática da língua portu- verdade, história social, valorosa reconhecimento desse guesa, enriquecida com palavras por- sobrevivência da nossa verdadeira bilingüismo seria fundamental tuguesas e espanholas. A língua geral língua brasileira. Se não fosse assim, no trabalho dos educadores.” foi usada correntemente pelos brasilei- seria impossível rir daquela história ros de origem ibérica, como língua de Nossa língua cotidiana está algo de dois mineiros que resolveram conversação cotidiana, até o século 18, distanciada da língua portuguesa, que temperar a prosa com café. E foram quando foi proibida pelo rei de é a oficial e, num certo sentido, é uma para a cozinha. Agua fervida, coador Portugal. Mesmo assim continuou língua importada. Não raro viajamos pronto, um pergunta para o outro: sendo falada. entre toponímicos tupis. Na cidade de “Pó pô o pó?”. E o outro responde, Da língua geral ficou como São Paulo, transito regularmente entre firme: “Pó pô!”. remanescente o dialeto caipira, tema o Butantã e Carapicuíba e o Embu, De fato, somos um povo de dicionário e objeto de estudos aonde levo meus alunos, periodica- bilíngüe, e o reconhecimento desse lingüísticos até recentes. Sobraram mente, para uma aula de rua. Ou os bilingüismo seria fundamental no pronúncias da língua tupi, reduções e levo ao Museu Paulista, no Ipiranga, trabalho dos educadores, em partiadaptações da língua portuguesa. Um para outra aula, ou à Mooca, para cular para enriquecer a compreensão jesuíta, no século 16, já observara que observações etnográficas sobre uma da língua portuguesa, última flor do os índios da costa tinham grande festa italiana. Faço tudo isso dentro da Lácio, inculta e bela, mais bela ainda dificuldade para pronunciar letras língua tupi. Como posso ir do rio porque invadida por esse outro lado como o “l” e o “r”. Especialmente na Guaíba à Paraíba ou ao Pará ou ao da nossa identidade social, que finalização de palavras como Piauí sem achar que estou falando teimamos em desconhecer. “quintal” e “animal”; ou verbos como uma língua estrangeira, que ela não é. “falar”, “dizer” e “fugir”. Essas letras Em escolas rurais de povoados José de Souza Martins, 64, é foram simplesmente suprimidas e as professor titular do Departamento de do Mato Grosso, do Pará e do Sociologia da USP. Maranhão, observei um fato curioso. 3 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Catarina Concurso Público – Edital 011/2009 – Prova Objetiva

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