Questões de Língua Portuguesa · FUNIVERSA

Língua PortuguesaPersonificação ou prosopopeiaFUNIVERSA 2012

CBM AP

Questão de Língua Portuguesa

1 Um dia, quando lhe perguntarem onde é que nasceu, a moça poderá responder, sorrindo: “Na lixeira”. Pois realmente foi ali que a jogaram, entre cascas de banana e 4 borra de café, para que não vivesse; e foi dali que a retiraram, viva, para que desse testemunho: até numa lixeira a vida pode começar. 7 O suposto nascimento anterior, num quarto, não vale para essa menina da Rua Pedro Américo; ele se consumou na clandestinidade, a contragosto da mãe, talvez 10 sem que o pai tivesse notícia e mesmo sem que a mãe tivesse notícia do pai. Não era desejado, não veio precedido de amor, mas de vergonha, medo, angústia, recriminação. 13 Quem nasce sob tais condições negativas é como se não nascesse, e a lixeira foi o instrumento providencial que ocorreu à mãe dessa menina errada, para anular, em escala 16 individual, o efeito da explosão demográfica. Enquanto não se decide a construção de crematórios para os que acabam regularmente, aí está, para os que começam irregularmente, 19 o incinerador do lixo doméstico. Nem seria preciso queimar a menina, com os demais detritos da casa. A morte viria logo — necessária, oportuna, benfazeja. 22 Mas, naquele dia, a lixeira reagiu de forma imprevista, abstendo-se de cumprir a missão que já tantas mães solteiras, desesperadas ou não, lhe confiaram. Ficou 25 surda aos argumentos sociais, morais e econômicos que demonstram a inconveniência de salvar-se uma vida de origem equívoca e de custeio incerto. Guardou a menina 28 como a lixeira pode guardar, sem qualquer cuidado higiênico ou resquício de conforto, mas guardou-a. Não lhe abafou o chorinho com o desmoronamento de um pacote de restos de 31 cozinha, ou a queda de uma lata vazia de pessegada sobre a cabeça. Na verdade, estimulou-a a chorar e bradar, dando-lhe ar pútrido e temperatura de fornalha, para que 34 melhor protestasse e atraísse, pelo sofrimento revoltado, a atenção do faxineiro. E chegou o faxineiro e tirou daquelas entranhas a 37 recém-nascida, como o obstetra faz o parto. Estava nascendo, na porcaria, uma criança; e outro menino não nasceu, faz muito tempo, num cocho de comida de animais, 40 no estábulo, entre o farelo e o milho? A lixeira pode fazer as vezes de maternidade, berçário moderno para a vida que quer manifestar-se de qualquer modo e não encontra outra saída. O obscuro humanitarismo, a piedade e a simpatia 43 dessa lixeira, não salvaram, criaram a vida. Foi lá que a criança verdadeiramente nasceu, quando os seres humanos, 46 a ordem econômica e os últimos preconceitos lhe negaram ou lhe impediram a existência. A menina, mais tarde, poderá dizer com alegria 49 reconhecida: “Devo minha vida a uma lixeira, foi nela que vim ao mundo”. E nós também devemos alguma coisa a essa lixeira: a lição de respeito à vida. Carlos Drummond de Andrade. Poesia e prosa Rio de Janeiro: Nova Aguilar, v. 1.

Em muitas passagens do texto, aparece a figura de estilo conhecida como personificação ou prosopopeia, que consiste em atribuir a objetos inanimados ou a seres irracionais sentimentos ou ações próprias dos seres humanos. Assinale a alternativa em que não aparece essa figura.

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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.