Língua PortuguesaSignificação de palavras e expressões em contextoIBAM 2020
Pref Santos
Questão de Língua Portuguesa
Anos atrás, li um artigo de um sociólogo chinês que afirmava considerar interessante o culto à democracia no Ocidente. Apesar de partilhar com meus conterrâneos ocidentais a crença de que a democracia é, de longe, o menos ruim dos regimes conhecidos (por limitar o poder e não porque exista alguma forma de sabedoria popular), com todas suas mazelas, achei interessante um sociólogo fazer esse julgamento. É óbvio que, em alguns séculos, talvez a democracia tenha passado, e nossos descendentes julguem peculiar nossa fé num sistema altamente volátil comparem essa nossa fé à antiga fé de se ler presságios nas vísceras dos animais: tão irracional quanto. A China é o grande desafio histórico do mundo contemporâneo. Não me refiro tanto aos jovens chineses que frequentam universidades e seus professores: esses são a mesma coisa no mundo inteiro, uma elite chique, acostumada a privilégios, que no fundo tem nojinho de gente pobre e ignorante. Refiro-me à população comum, que não fez universidade, ou se o fez, o fez apenas com objetivos técnicos de sobrevivência. Tive a chance, recentemente, de falar com pessoas assim na China e de entender um pouco alguns meandros desse gigante econômico, que poderá pôr em dúvida a relação, supostamente considerada como essencial, entre sociedade de mercado (e o enriquecimento em larga escala que ela gera) e democracia liberal. Uma das coisas que mais me chama a atenção nesse estrato da população, com quem você pode conversar se não considerar gente “comum” um asno — como o fazem, corriqueiramente, os membros da minha tribo — é um certo desinteresse profundo pela ideia de democracia. Ouvi de uma mulher de cerca de 30 anos, cujo marido acabou de abrir um pequeno restaurante num shopping chique tipo JK Iguatemi em Pequim, que estão trabalhando como loucos para fazer dar certo, que não querem a vida inquieta e infeliz que seus irmãos de Hong Kong têm. Manifestações nas ruas, interrupção do cotidiano e insegurança. Segundo ela, a vida na China é tranquila, feliz e segura. A comparação com Hong Kong é significativa se lembrarmos que a região vive instabilidade há meses. A ideia de que trocamos facilmente liberdade por estabilidade é falsa. O amor à democracia é um fetiche. O desafio que a China nos coloca é se de fato a democracia é fundamental para se viver materialmente bem. Homens e mulheres tendem a optar pela segurança material em detrimento de formas mais “abstratas” de bem-estar. Compilado e adaptado. Luiz Felipe Pondé, jornal “Folha de São Paulo”, edição de 6/1/2020.
Afirmar que a democracia é um fetiche equivale a dizer que ela:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

