Questões de Língua Portuguesa · Fundatec

Língua PortuguesaEstrutura das palavras e elementos mórficosFundatec 2012

CM POA

Questão de Língua Portuguesa

02 em grande parte, do público. 03 No circo, a plateia é chamada de “respeitável público” e faz por merecer o tratamento. Ela come 04 pipoca, bate palmas, ri do palhaço, arregala os olhos quando o leão entra no picadeiro, suspira com os 05 volteios da trapezista, de pernas esguias e biografia misteriosa. No circo, o público é família. Mesmo no 06 circo romano, o Coliseu, os costumavam se dar o respeito – e eram respeitados pelo 07 imperador, que, vez ou outra, consultava o povo sedento de sangue para saber se o gladiador imobilizado 08 pelo oponente deveria ou não deveria ser executado na arena. Os lutadores e o soberano se dobravam às 09 da turba, que não estava lá para contemplar mesuras e boas maneiras. De sorte que até 10 mesmo ali, a seu modo rude e animalesco, o público era respeitável. 11 A política de nossos dias não é um circo, nem mesmo de horrores: ela é pior, e isso não porque os 12 políticos desrespeitem o público, mas porque o público abdicou do próprio respeito. Às vezes, temos a 13 sensação de que o público em nome do qual se faz tal política é repugnante, talvez mais do que as 14 pequenas multidões que gargalhavam quando a cabeça dos nobres tamborilava aos pés da guilhotina, no 15 terror da Revolução Francesa. O público é . 16 Na semana passada, tivemos mais uma prova abrasiva dessa verdade. Imediatamente após a 17 divulgação da notícia de que o ex-presidente Lula contraiu câncer na laringe, entrou em atividade, na 18 internet, um vulcão de baixarias preconceituosas, ofensivas, injuriosas, para agredir um ser humano que 19 adoeceu. Nas redes sociais, um grupo lançou uma campanha para tripudiar. Entre outras maldições, 20 sentenciaram Lula a ir procurar seu tratamento no SUS, e proclamaram: “É melhor ele continuar vivo, ainda 21 que sem voz, e parar de envenenar o mundo com suas palavras ignorantes”. 22 É claro que não podemos generalizar: não é a totalidade dos frequentadores das redes sociais que se 23 comportam como hienas histéricas, como urubus descompensados, como trogloditas virtuais. Mas é claro, 24 também, que são muitos. São milhares. Tanto que se tornou impossível . Eles constituem um 25 sintoma grave – sintoma em todos os sentidos, do farmacológico ao psicanalítico – em que o ódio de classe 26 atropela o debate das ideias. 27 Sim, ódio de classe. Quem manda Lula ir se tratar no SUS declara ódio contra Lula e também contra o 28 SUS, contra a lei, contra tudo que guarde uma reminiscência de assistência social e de pobreza. Esse 29 discurso reedita a velha máxima brasileira: “Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei”. Traduzindo: o SUS é a 30 lei, e a lei só pode fazer mal; o SUS é como as penitenciárias; todo serviço público é odioso. Essa gente se 31 recusa a admitir que, no SUS, muitos de nós já nos tratamos com sucesso, nem que tenha sido uma única 32 vez na vida, embora a administração pública ainda padeça os males causados pelos ladrões e pelos 33 parasitas incompetentes. Essa gente se enfurece porque Lula foi atendido num hospital de elite, mais ou 34 menos como a personagem caricata da novela das 9, Tereza Cristina, se destempera, aos urros, porque a 35 ex-pobretona Griselda ganhou na loteria e comprou uma casa no mesmo condomínio de luxo ela tem sua 36 mansão. O detestável público que agora insulta Luiz Inácio Lula da Silva é uma massa ignara de Terezas 37 Cristinas esbravejantes, defendendo aos tapas seu condomínio imaginário. Condomínio que, 38 honestamente, é uma favela moral de palácios com vidros à prova de bala (o SUS é melhor, inclusive para 39 a saúde). 40 Antes falávamos do câncer e da AIDS como metáforas de fenômenos menos visíveis. Agora somos 41 forçados a decifrar, na internet, de onde vem a metáfora do ódio e, pior, para onde ela aponta. Um câncer 42 de laringe num líder populista é metáfora? Evidentemente, sim, mas a fúria espalhafatosa que ele atrai é 43 de doença mais preocupante. 44 Faz décadas, Nelson Rodrigues caçoou de Otto Lara Resende atribuindo a ele uma frase que se 45 tornaria célebre: “O mineiro só é solidário no câncer”. Naquele tempo, o público ia ao teatro. Hoje o público 46 não sabe o que é solidariedade. Nem no câncer. Se ele não se der ao respeito, não haverá mais política. O 47 debate de ideias sucumbirá ao desejo de exterminar o outro. E a voz do povo será a voz da treva. (Fonte: Revista Época, 07/11/2011, Nº 703, p. 19. – adaptações) 5

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Considerando a estrutura e a formação das palavras, assinale a alternativa INCORRETA.

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