Questões de Língua Portuguesa · CEFETBAHIA

Língua PortuguesaDerivaçãoCEFETBAHIA 2007

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Questão de Língua Portuguesa

Texto: ELOGIO DA DELICADEZA Situação 1: você está num bar ou restaurante com seu parceiro e este encontra um amigo que você não conhece. O amigo do seu parceiro se senta à mesa com vocês. Ele conversará, animadamente, com seu parceiro, sem, em nenhum momento, dirigir-se a você, ele insistirá em assuntos privados, que dizem respeito à amizade deles, ele não quererá 05 – saber o que você faz, o que você pensa sobre tal ou tal coisa. Ele não lhe fará nenhuma pergunta. Situação 2: você está numa mesa de bar ou numa roda de festa com amigos e conhecidos. Um deles fala sem parar, sem descanso, conta longas histórias, de preferência, é claro, sobre si mesmo, e é incapaz de perceber qualquer signo de enfado ou desinteresse 10 – dos que o ouvem. Trata-se do gênero the autobiography of myself according to my own view. É uma fala de tal modo sem pauses que tentar fazer um aparte seria, como na metáfora do personagem José Costa, igual a “cortar um rio a faca”. Situação 3: você conhece aquela pessoa já há algum tempo, encontra-se com ela freqüentemente em ocasiões sociais, volta e meia participa de conversas em que ela está 15 – presente, vocês chegam mesmo a conversar entre si, mas ela nunca te chama pelo nome. Estas e outras cenas da vida urbana contemporânea parecem indicar o que se pode designar como déficit de escuta. Mesmo correndo o risco de incorrer em uma sociologia apurada, é inevitável associar esse comportamento à vigência de uma cultura espetacularizada em que o valor da existência é, para muitos, regulado pela visibilidade de 20 – si mesmo. Luiz Eduardo Soares observa, por exemplo, que a violência perpetrada por meninos de rua está diretamente ligada a uma carência de visibilidade; pois, numa sociedade que difunde ostensivamente serem o dinheiro e a celebridade os valores fundamentais de reconhecimento social, ao mesmo tempo em que tanto a economia financeira quanto a economia narcísica são muito pouco democráticas, o crime acaba se 25 – tornando uma maneira eficiente de ganhar dinheiro e chamar a atenção. De resto, alguém que não é contemplado pelas regras da sociedade não tem mesmo razão para manter o “pacto social”. Em outro plano, o ator José Wilker notou, com perspicácia, que atualmente não se deve falar apenas de uma invasão de privacidade – por parte dos papparazzi etc. –, mas 30 – também, e talvez sobretudo, de uma “evasão de privacidade”, como atestam as assessorias de imprensa de celebridades que ficam mandando para os veículos de mídia informações relevantíssimas sobre seus clientes, como o presente de Natal que um deu pra namorada, a roupa que a outra vai usar no desfile de Fulana, e por aí vai. Uma tal reciprocidade confirma a sentença exata do sociólogo Pierre Bourdieu, segundo a qual “toda vítima é cúmplice 35 – simbólica do que a vitima”. É assim que, dos meninos de rua que roubam tênis Nike aos vídeos caseiros enviados para a triagem do Big Brother, a busca encarniçada pela visibilidade determina desejos e condutas, em maior ou menor grau. O que propus chamar de déficit de escuta, também pertence, portanto, a esse amplo quadro ético. As situações narradas acima convidam a uma pequena semiologia das relações 40 – pessoais, em que é preciso determinar o valor, os significados e a dimensão de certos gestos. É necessário perceber, nesse contexto, a estreita relação entre retórica e ética: o Concurso Público para Provimento de Cargos Técnico-Administrativos – CEFET-BA /2007 P. 1 / 25 uso da pergunta, do silêncio e do nome próprio são formas que manifestam uma abertura ao outro, uma aproximação, uma disposição antes para a amizade que para o exibicionismo. Perguntar ao outro é uma forma retórica de se abrir à sua existência. Chamá-lo pelo nome 45 – próprio instaura o reconhecimento de sua singularidade. Não usar o nome próprio, insistindo nos pronomes pessoais, é generalizar o outro, isto é, não reconhecer sua singularidade. No romance de Cyro dos Anjos, O amanuense Belmiro, um dos personagens nunca chama os outros por seus nomes próprios, somente por caricaturas fônicas que ele inventa: “Florêncio” por “Abundâncio”, “Belmiro” por “Porfírio” etc. o chiste, é certo, sua graça 50 – (“Abundâncio” é hilário), mas não para os que perdem o nome próprio; não é à toa que Florêncio se revolta sempre com a troca de nomes, e que o gozador, Silviano, é arrogante e autocentrado, além de péssimo filósofo. Com efeito, há dois tipos de chiste: um que convida o outro ao gozo comum de uma invenção inesperada, e um segundo que faz do outro o próprio instrumento do chiste, 55 – excluindo-o do gozo. É este último o caso de Silviano. É também, por exemplo, o caso dos humoristas do Pânico na TV, que fundamentam seu humor no constrangimento. A delicadeza é uma estratégia sutil e rizomática para desarmar a arrogância e esvaziar as formas de vida que prejudicam a sociabilidade sem, tampouco, produzir solidões inventivas e afirmativas. Escutar é uma das manifestações fundamentais da delicadeza. 60 – Mas escutar é uma positividade: não se confunde com o silêncio, com o deixar de falar. Pode-se ser silencioso e não se ter escuta, como se pode tê-la sendo loquaz. A escuta é ativa, é uma oferta – pela qual se recebe o outro. E a fala pode ser, ela mesma, uma escuta: sendo suspensiva, não-arrogante, deixando espaço para o outro. A delicadeza é uma virtude do século 21. Uma das propostas éticas para este milênio. 0 BOSCO, Francisco. Elogio da delicadeza. In: Cult – REVISTA BRASILEIRA DE CULTURA, ano 10, n 115, julho/2007, São Paulo. p. 34-35.

Os sentidos de “invasão” e “evasão” (linhas 29 e 30), considerando os prefixos, remetem para a idéia de, respectivamente,

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