Língua PortuguesaPonto e vírgula e dois-pontosFundatec 2019
Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia Farroupilha - IFFAR Concurso Público Nº
Questão de Língua Portuguesa
Nas viagens, a paisagem que mais nos espanta é a nossa 01 Descobri que viajar é trocar de espelho. Em casa, o espelho que nos reflete não mostra 02 nossa mudança. Como todos os objetos da nossa rotina, o espelho da casa é um espelho 03 domesticado. Sabemos o que vamos enxergar. Às vezes até achamos que controlamos este 04 espelho como dominamos as mesas e as cadeiras, a posição do sofá, o canal do controle remoto, 05 o dia de lavar os lençóis da cama. Mesmo quando notamos um quilo a mais ou um par de olhos 06 mais fundos, aquele espelho é nosso e por ser nosso nos ameaça menos. Damos uma passadinha 07 diante dele, às vezes involuntária, e ele nos conforta ao garantir que, sim, estamos lá. Sou eu 08 que olho para mim. E aquela superfície lisa me garante que existo. 09 Quando deixamos nosso mundo e partimos em direção a outros destinos, a primeira 10 paisagem que nos espanta é nossa própria geografia. Ao bater a porta de casa em direção ao 11 novo, a primeira imagem familiar que abandonamos é a de nós mesmos, e o primeiro estrangeiro 12 que nos espanta é o que nos encara do espelho da estação rodoviária ou do aeroporto. Quem é 13 esta pessoa que me olha? Com frequência, somos tentados a fazer a pergunta da poetisa Cecília 14 Meireles: “Em que espelho ficou perdida a minha face?”. 15 Toda viagem contém nossa esperança de sermos mais livres, mais felizes, mais 16 aventureiros, mais relaxados, melhores. Em geral, deixamos um cotidiano que nos confina a uma 17 vida que para muitos é menor e mais apertada do que nos sonhos. Ao botar o pé na estrada, 18 temos a expectativa de embarcar numa outra forma de ser e de viver, em um outro eu que nos 19 parece mais verdadeiro que aquele que acorda todo dia de manhã para seguir um roteiro 20 previsível. Como se longe de casa tivéssemos uma espécie de autorização para finalmente 21 sermos um tal de eu mesmo. 22 Então, vem à tona a primeira surpresa. Aquele rosto que nos estranha no espelho do 23 caminho é nosso. Ele nos perturba mais porque sabemos que é nosso, ainda que diferente pelo 24 ângulo, pelo tamanho e pela luz desconhecida do objeto que nos reflete com outras verdades. E 25 já ali, neste primeiro confronto, vemos algo que não sabíamos sobre nossa face, algo que o 26 espelho domesticado não havia nos mostrado. Começamos ___ compreender ali o pior e o 27 melhor das viagens: o risco. Talvez o que as pessoas que detestam sair de casa ou alterar ___ 28 rotina mais temam é justamente o que podem ver de si mesmas num espelho que não é o seu. 29 É só ao sair que descobrimos que não podemos sair. Podemos embarcar apenas em nosso 30 próprio corpo. Às vezes aquelas malas todas, aqueles tantos sapatos e roupas, são apenas uma 31 tentativa inconsciente e desesperada de evitar a descoberta de que somos nossa própria 32 bagagem e viajamos apenas com tudo o que somos. Nem mais nem menos, nosso excesso de 33 peso é nossa nudez. É preciso abrir a porta da rua para compreender que ela só abre para dentro 34 e só leva para dentro. 35 Viajar é uma escolha profunda, que não depende da distância nem do destino. Numa 36 viagem, estamos sempre sozinhos, ainda que no meio de hordas de turistas. As paisagens 37 externas iluminam nossa paisagem interior, para o bem e para o mal. Não visitamos Roma, Nova 38 York ou Paris, as pirâmides do Egito, o deserto do Saara, as savanas africanas, o Rio de Janeiro, 39 a Amazônia ou o outro lado da rua. O que fazemos é revisitar a nós mesmos no contato com 40 diferentes culturas e percepções de mundo. A mudança de paisagem ilumina os cantos escuros 41 dos precepícios e as profundezas dos lagos que nos habitam. Sempre esperamos que exista em 42 nós um belvedere, é essa a nossa expectativa ao viajar. E nem sempre é um belvedere o que 43 encontramos. Por isso, toda viagem é subjetiva e, possivelmente, quando detestamos um lugar 44 ou um povo, é porque não gostamos do que vimos em nós. 45 Toda viagem é sem volta e leva sempre ao mesmo lugar: a nós mesmos. Ao final de cada 46 uma, o melhor que podemos esperar é termos nos tornado mais o que somos. (Disponível em: http://desacontecimentos.com/?p=326 - texto adaptado especialmente para esta prova.)
Analise as seguintes afirmações sobre o uso dos dois pontos no texto: I. Na frase “Com frequência, somos tentados a fazer a pergunta da poeta Cecília Meireles: ‘Em que espelho ficou perdida a minha face?”, foram empregados para anunciar a fala de um personagem ficcional. II. No fragmento “Então, vem à tona a primeira surpresa. Aquele rosto que nos estranha no espelho do caminho é nosso”, o ponto poderia ser substituído por dois pontos para indicar supressão de palavras numa frase transcrita. III. No excerto “Começamos a compreender ali o pior e o melhor das viagens: o risco”, foram utilizados para indicar um esclarecimento, um resultado ou resumo do que se disse. Quais estão corretas?
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

