Questões de Língua Portuguesa · FAPEU

Língua PortuguesaInterpretação de textosFAPEU 2005

TRE SC

Questão de Língua Portuguesa

Texto 1 “A Sibéria. À margem de um rio largo e deserto ergue-se uma cidade, que é um dos centros oficiais da Rússia: na cidade existe uma fortaleza e na fortaleza uma prisão. Na prisão está há nove meses Raskólnikof, condenado a trabalhos forçados. Perto de dezoito meses passaram desde o dia em que cometeu o crime. Na formação do processo não houve embaraços. O culpado renovou as declarações com nitidez e precisão, sem torcer as circunstâncias, sem lhes amenizar o horror, sem fugir aos fatos, sem esquecer os menores detalhes. Fez uma narração completa: desvendou o caso do objeto visto nas mãos da velha (lembram-se de que era um pedaço de madeira preso a uma lâmina?); contou como tirara as chaves do bolso da vítima, descreveu essas chaves e o cofre e indicou o que vira; explicou a morte de Isabel; contou como Koch batera à porta, como depois dele viera um estudante; referiu a conversa entre os dois; como, depois, ele correra para a escada, ouvira os gritos de Míkolai e Mitka, escondera-se no quarto vazio e voltara para sua casa. Afinal, quanto aos objetos roubados, disse que os escondera sob uma pedra, num pátio que dava para a rua Voznesênski, e lá foram encontrados. Enfim, fez-se luz sobre tudo. O que, entre outras coisas, surpreendia os juízes era que, em vez de aproveitar o roubo, ele fosse escondê-lo; e ainda menos compreendiam que não só não lembrasse de todos os objetos roubados, mas que até se enganasse no número. Demais, achava-se incrível que não tivesse aberto a bolsa uma só vez e ignorasse o que continha. (Eram trezentos e dezessete rublos e três moedas de vinte copeques; por causa da umidade as notas estavam deterioradas). Durante muito tempo deu-lhes que pensar por que razão nesse último ponto o acusado mentia, ao passo que sobre o resto dizia a verdade. Por fim alguns (especialmente os psicólogos) admitiram a possibilidade de não ter aberto a bolsa e de se ter, portanto, livrado dela sem saber o que continha; mas disso concluíram que o próprio crime fora cometido sob influência de loucura. O culpado, disseram, cedera à monomania do assassínio e do roubo, sem objetivo fixo, sem cálculo. Era uma ocasião de proclamar a teoria nova da alienação temporária; teoria com a qual se procura hoje explicar os crimes de certos homens. Além disso, a doença hipocondríaca de que sofria Raskólnikof era atestada por muitas testemunhas: o doutor Zósimof, antigos camaradas do réu, a sua hospedeira, os criados. Tudo isso fazia crer que Raskólnikof não era um assassino vulgar. Com grande espanto dos próprios partidários da opinião, ele não tentou defender-se; interrogado sobre os motivos, declarou com franqueza brutal que fora levado pela miséria: esperava, disse, encontrar em casa da vítima ao menos três mil rublos e contava com isso garantir o seu começo de vida. O seu caráter, leviano e baixo, exasperado pelas privações, fizera dele um assassino. Quando lhe perguntaram por que fora entregar-se, respondeu que representara a comédia do arrependimento. Tudo isso foi dito com cinismo... Todavia a sentença foi menos severa de que se presumia, em atenção ao crime; foi talvez favorável ao acusado o fato de, em vez de pretender desculpar-se, mostrar-se antes empenhado em acusar-se. Todas as particularidades do caso foram tomadas em consideração. O estado de doença e de pobreza em que se encontrava o réu antes do crime não podia oferecer dúvida nenhuma. Como não se serviu do roubo, supôs-se, ou que o remorso o impedira disso, ou que as suas faculdades mentais não eram regulares quando praticou o crime. A morte, não premeditada, de Isabel, deu também um argumento em apoio desta última idéia; um homem pratica dois assassínios e esquece-se de que a porta está aberta! (...). Por outro lado, os debates puseram em evidência fatos honrosos para o réu. Uns documentos apresentados pelo estudante Razumikine provavam que, na Universidade, Raskólnikof tinha repartido os seus poucos recursos, durante seis meses, com um colega pobre, doente, que morrera, deixando na penúria o pai enfermo, de quem era, desde os treze anos, o único amparo; Raskólnikof fizera o velho entrar numa casa de saúde e depois pagara as despesas do enterro. O testemunho da viúva Zarnitzine foi também muito favorável. Declarou que na época em que morava nos Cinco–Cantos com o seu inquilino, tendo havido um incêndio numa casa, à noite, ele arriscara a vida, salvando duas criancinhas; e que ficara até gravemente ferido ao praticar esse ato. Fez-se um inquérito relativamente a esse fato e numerosas testemunhas certificaram a sua exatidão. Enfim, o tribunal, atendendo às confissões do réu como aos seus bons antecedentes, condenou-o apenas a oito anos de trabalhos forçados.” DOSTOIEVSKI, Fiodor M. Crime e castigo. Tradução de Luiz Cláudio de Castro. São Paulo: Editora Ediouro, s/d, p. 320-321.

Ainda, com base no Texto 1, assinale a alternativa CORRETA.

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