Questões de Língua Portuguesa · Ibest

Língua PortuguesaVícios de linguagemIbest 2024

Pref Cristalina

Questão de Língua Portuguesa

1 Ser rico é ter muitas coisas repetidas. Por dias essa frase da minha filha, dita sem pretensão, na incerteza leve dos seus três anos de idade, ficou a 4 ecoar em mim. Sem mistificação, sem excesso crítico, de forma não mais que intuitiva, ela soube expressar ali a insensatez da riqueza e a impotência que lhe é constitutiva. Não há no mundo diversidade de coisas 7 suficiente para saciar a riqueza, não há posse boa o bastante para justificá-la, e assim o sujeito insiste em 10 duplicar e triplicar o que já tem, num esforço vazio fadado ao tédio. Foi esta a beleza simples que vi na definição da minha filha: que, em sua visão da riqueza, 13 já estivesse contida a frustração que ela pode produzir, a desilusão tão própria à insípida posse das coisas. 16 Quando penso nas relações que as crianças travam com o dinheiro, nunca me escapa à lembrança o espantoso ensaio de Natalia Ginzburg 19 sobre "as pequenas virtudes". Num mundo que se apressa em ensinar às crianças o valor do sucesso e da riqueza, confundindo um e outro e tornando-os 22 requisitos para a felicidade, Ginzburg vai na contramão e renega a importância que atribuímos a posses e lucros. Propõe que não ensinemos às 25 crianças a pequena virtude da poupança, e sim a grande virtude da generosidade e da indiferença ao dinheiro. Propõe provocativamente que não lhes 28 ensinemos a guardar, e sim a gastar, para que não se afeiçoem ao dinheiro e o associem "a algo de momentâneo e estúpido", para que pensem que o 31 dinheiro em si é estúpido, "como é justo pensar durante a infância". Ginzburg não deixa de fazer a distinção 34 necessária entre as famílias pobres e as ricas, é claro, não desconsidera a diferença abismal que se dá entre umas e outras. Mas acaba apontando que o mal-estar 37 provocado pela centralidade do dinheiro nas relações humanas vai além das desigualdades, contagiando quase todos com certa avidez, condenando quase 40 todos a uma decepção constante. Nossa cultura insiste que devemos querer sempre mais, que nada deve nos bastar, sendo esse o suposto motor da 43 prosperidade. Nossa cultura é incapaz de ver a insatisfação crônica que isso gera nos adultos, e que reverbera de inúmeras maneiras nas crianças — por 46 sorte ainda aptas ao estranhamento. Eis a complexidade que o caso tem. É preciso dar ao tema do dinheiro a dimensão certa: é grandioso se pensarmos no modo como ele estrutura 49 a nossa sociedade, mas deve ser ínfimo e irrelevante se o considerarmos individualmente. Em ambas as 52 mensurações, estamos um tanto perdidos, é o que sinto. Olhamos com apatia os que dormem nas ruas, quando não com indiferença. E temos, diante dos 55 objetos reluzentes do mundo, a avidez de crianças pequenas na loja de brinquedos, consumidores afoitos que pouco sabem da legitimidade de seus próprios desejos. Não precisamos de tantas coisas 58 repetidas, é o que deveríamos dizer às crianças, mas elas parecem sabê-lo antes de nós. Já é tempo de que 61 os adultos o compreendam. Julián Fuks. O que dizer às crianças sobre o dinheiro, o consumo e o desejo? UOL (com adaptações).

Assinale a alternativa que apresenta uma sugestão de alteração no texto que preservaria sua correção gramatical e seu sentido.

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