Língua PortuguesaInterpretação de textosFBC 2012
CFC
Questão de Língua Portuguesa
27 14 dólares Carlos Drummond de Andrade 1 Um poeta da geração de 45, meu amigo (há desses milagres), contou-me 2 que sua glória transpusera enfim o limite do Villarino e se projetara nos Estados 3 Unidos. Uma revista da Madison Avenue pedira-lhe versos, traduzira-os 4 limpamente e pagara por eles quantia que nunca jornal algum nessas brenhas 5 ousou soltar por trabalho desse naipe. 6 – Mil contos? – perguntei-lhe, assanhadíssimo. 6 – Tanto assim, não. 20 dólares. Mas o versinho era curto, sem métrica. 7 Legal, não acha? 8 Não dá para um automóvel, pensei comigo, mas felicitei o rapaz [...]. Em 9 todo caso, apeteceu-me espiar a cor do dinheiro forte. 10 – Amigo, vi poucos dólares em minha vida. Viagem mesmo, faço a de 11 lotação para a cidade, e ando farto da efígie do Rio Branco. Me mostre seu 11 dolarzinho. 12 – Bem, devo explicar que dos meus 20 dólares poéticos, o governo norte- 13 americano papou 6, de imposto de renda. Cobrado na fonte, hein? [...] 14 – De qualquer maneira, 14 dólares são 14 dólares – sentenciei, mais para 15 confortar o jovem confrade que como eco de convicção profunda. – Ora deixe ver 16 os 14 dólares. 17 – O cheque? 18 – Não, a espécie, a figurinha da águia. 19 – Bem, não houve propriamente dólares. O cheque dizia esse nome santo, 20 mas o caixa, no banco americano que o descontou, explicou-me que dólar é a 21 mesma coisa que cruzeiro. 22 – E você acreditou? 23 – Era acreditar ou largar. Disse-me que, onde quer que eu levasse o 24 cheque, me pagariam em cruzeiros, a menos que eu fosse a Nova York receber na 25 matriz. Tentei argumentar que aquilo era uma importação de capitais, saudável à 26 pátria: a tal revista possuía 14 dólares em Nova York, e por artes de um simples 27 poema hermético, esses dólares vinham dinamizar a economia brasileira. O Banco 28 os desembolsaria aqui, mas ficaria com outros 14 em Nova York, para importação 29 de tratores, geladeiras, etc. 30 – E ele? 31 Sorriu, mas ponderou que eram ordens da Carteira de Câmbio do Banco do 32 Brasil. E tinha mais: ia pagar-me ao preço de compra, não ao de venda do dólar. 33 Mas eu não estou vendendo, estou recebendo, retruquei ao caixa. Ele abanou a 34 cabeça: “Também não está comprando; então, aplica-se a cotação de venda, que 35 mais nos convém.” Em resumo: saí com 1.029 cruzeiros no bolso, um tanto 36 confuso. Veja o que é o dólar: a primeira oportunidade que me dão de possuir 20, 37 logo de saída perco 6, e os outros se dissolvem no ar em simples cruzeiros. Há 38 quem os venda e quem os compre, mas ninguém os vê. Tenho a impressão de que 39 dólar não existe, apesar de tão forte, ou por isso mesmo. [...] Fala, Amendoeira: costumes. In: Obra Completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1967. p.766-767. 28
A leitura do texto NÃO permite inferir que:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.
