Questões de Língua Portuguesa · CRESCER

Língua PortuguesaInterpretação de textosCRESCER 2016

CRP (PI)

Questão de Língua Portuguesa

21ª REGIÃO Jurisdição – Piauí AGENTE CARTORÁRIO DATA: 20/11/2016 – MANHÃ DURAÇÃO: 3 HORAS 1. Você receberá do fiscal de sala os materiais descritos a seguir: sala para que sejam tomadas as devidas providências. 3. As questões objetivas são identificadas pelo número situado acima do seu enunciado. a) conferir seus dados pessoais, em especial seu nome, número de inscrição e o número do documento de identidade; b) ler atentamente as instruções para a marcação das respostas das questões objetivas; c) assinar seu nome, apenas nos espaços reservados, com caneta esferográfica transparente de cor azul ou preta. 5. Durante a aplicação da prova não será permitido: a) qualquer tipo de comunicação entre os examinandos; b) levantar da cadeira sem a devida autorização do fiscal de sala; de entrega de tal documento será eliminado do concurso. 12. Ao sair da sala, ao término da prova, o candidato não poderá usar o sanitário. 13. Os gabaritos preliminares das provas objetivas serão divulgados na Internet, no endereço eletrônico http://www.crescerconcursos.com.br no dia 21 de novembro de 2016. 14. O candidato que desejar interpor recursos contra os gabaritos preliminares das provas deverá fazê-lo da 0h00min do dia 23 de novembro às 23h59min do dia 24 de novembro 2016, ininterruptamente, observado o horário oficial de Brasília-DF, por meio de formulário que será disponibilizado no site e enviar EXCLUSIVAMENTE por e-mail crescer.consultoria_crp@outlook.com INSCRIÇÃO 10 QUESTÕES A uberização da vida 1 A tecnologia e o trabalho vivem, nos últimos séculos, uma relação pontuada por uma série 2 de episódios surpreendentes, quase sempre marcados pelo conflito. 3 Desde o início da era industrial, no século XVIII, os operários de fábricas são assombrados 4 pelo espectro de sua substituição por máquinas. Naquela época, havia boatos, na Inglaterra, sobre 5 o lendário general Ned Ludd, que incitava a invasão das tecelagens e a destruição das máquinas 6 para conter o desemprego em massa. 7 Nunca saberemos ao certo se Ned Ludd realmente existiu. Contudo, o termo ludismo 8 passou a ser incorporado pela literatura sociológica e filosófica como designando a revolta contra 9 a tecnologia. Nas últimas décadas já se fala até em neoludismo, um movimento radical que 10 defende a reversão da humanidade para um estado pré-tecnológico. 11 É provável que ocorra algo semelhante a uma revolta ludita hoje em dia, se algumas 12 promessas da tecnologia se concretizarem. Uma delas é a substituição dos motoristas 13 profissionais pelo piloto automático do Google. Se isso ocorrer, presenciaremos a maior onda de 14 desemprego dos últimos séculos, o fantasma, dessa vez, seria a inteligência artificial. 15 No entanto, já existe uma outra revolução em curso, que chega liderada pelo aumento 16 crescente dos aplicativos. Além de nos disponibilizar serviços no esquema 24/7 (24 horas por 17 dia, sete dias da semana), a internet começa, agora, a preencher nichos de tempo livre com 18 trabalho. Chamo a esse fenômeno de uberização. 19 Frequentemente, o Uber é um aplicativo associado com a substituição dos táxis nas 20 grandes cidades, mas é muito mais do que isso. Inicialmente, o projeto do Uber era organizar 21 caronas solidárias nas grandes cidades. No entanto, alguns empresários perceberam que 22 poderiam aproveitar o fato de que, hoje em dia, praticamente todas as pessoas dirigem carros e 23 que, se essa força de trabalho fosse aproveitada e organizada por um aplicativo, os motoristas 24 amadores poderiam, praticamente, assumir o mercado preenchido pelos táxis, bastando, para 25 isso, fazer "bicos" em horas vagas. 26 Em pouco tempo, o Uber se tornou uma daquelas empresas arquibilionárias do vale do 27 silício, cujo endereço é apenas alguma caixa-postal de algum paraíso fiscal caribenho. Com ele, 28 vieram outros aplicativos para preencher com trabalho as horas vagas de muitas outras atividades 29 profissionais. A advogada que está com poucos clientes pode compensar essa situação se souber 30 fazer maquiagem. Há um aplicativo para chamá-la nas vésperas de eventos. Ela não precisa ser 31 uma maquiadora profissional e, por isso, sabe-se que ela cobrará a metade do preço. Se você tem 32 uma moto, pode maximizar seu uso fazendo entregas aos sábados em vez de deixá-la ociosa na 33 garagem do seu prédio. Todo mundo está disposto a fazer "bicos", e todo mundo, também fica 34 feliz quando pode pagar menos por um serviço. 35 A uberização é o trabalho em migalhas. Ela começa com a profissionalização do 36 amadorismo, pois todos podemos ser motoristas, jardineiros ou entregadores nas horas vagas. 37 Contudo, o inverso, ou seja, o rebaixamento de profissionais a amadores, já está acontecendo. 38 Muitos profissionais qualificados estão se inscrevendo em aplicativos que os selecionam para 39 prestar serviços a preços reduzidos em determinados horários ou dias da semana. É possível que, 40 em pouco tempo, o trabalho qualificado se torne parte do precariado. 41 Ainda é difícil prever os resultados da uberização do trabalho. A relação contínua entre 42 empregados e patrões tenderá a desaparecer, sobretudo no setor de serviços. A babá de seu 43 filho, quando você for ao cinema com sua esposa, será escalada por um aplicativo e, 44 dificilmente, será a mesma pessoa em todas as ocasiões. Não haverá mais o taxista de confiança 45 ou o garçom que te reconhece sempre que você entra em um determinado restaurante. 46 Com a uberização, a liberdade e a coação se tornam coincidentes, pois todos se tornarão 47 patrões de si mesmos. A dialética senhor-escravo, tão cara aos hegelianos e a seus herdeiros 48 marxistas, desaparecerá. Pois todos seremos sempre ao mesmo tempo senhores e escravos. 49 Exploraremos a nós mesmos de forma implacável. 50 A demarcação entre tempo livre por oposição ao horário de trabalho será ainda mais 51 diluída. Todos se sentirão culpados por tirar uma soneca após o almoço de domingo em vez de 52 aproveitar o tempo fazendo uma corrida de táxi para alguém que precisa ir ao aeroporto para 53 viajar, provavelmente, a trabalho. 54 Na Antiguidade, os gregos desprezavam o trabalho. No mundo cristão, sobretudo com a 55 reforma protestante, ele passou a ser associado com dignidade. Não ter emprego, não ter trabalho 56 passou a corroer a autoestima de muitas pessoas. O homem contemporâneo ainda associa 57 trabalho com dignidade, embora, paradoxalmente, esteja aceitando trabalhos cada vez mais 58 indignos para sobreviver. 59 O sociólogo sul-coreano Byung-Chul Han aponta, no seu livro A sociedade do cansaço 60 (Vozes, 2015), que não é por acaso que enfrentamos uma pandemia de depressão. De um lado, há 61 metas inatingíveis, e de outro, apenas oferta de trabalho precário. 62 A precariedade da vida tende a se tornar um padrão. As novas gerações já sabem que o 63 sonho da estabilidade ficou para trás. Como trabalhadores efêmeros e também consumidores 64 efêmeros, a ideia de uma vida melhor no futuro, como resultado de uma carreira, tende a 65 desaparecer. A uberização da vida, João Teixeira. FILOSOFIA, Ciência & Vida, Ano IX, nº 120, p.60/61.

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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.