Língua PortuguesaExpressões idiomáticas e provérbiosUFSM 2017
UFSM
Questão de Língua Portuguesa
Sabemos que falar de si não é uma atividade muito bem vista em nossa cultura. Nietzsche já dizia que "falar de si mesmo é esconder o que realmente se é", ou seja, um jeito de enganar os outros. Voltaire também não deixava por menos: "O orgulho dos pequenos consiste em falar sempre de si próprios; o dos grandes em nunca falar de si". No entanto, todos falamos de nós mesmos, grandes e pequenos. Entre os grandes, temos os poetas, que dizem falar de si como se estivessem falando pela voz do outro, fazendo de conta que estão assumindo o "eu lírico", mas não é bem assim. Fernando Pessoa já deixou isso bem claro, fingindo que era dor a dor que deveras sentia. No quesito orgulho, ninguém supera nosso Camões: "Cesse tudo o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta". Os grandes falam de si, e falam com muito orgulho. Também entre os grandes, temos os pintores, com seus autorretratos. Rafael, Rembrandt, van Gogh, El Greco, Frida Kahlo, Picasso, Portinari, Tarsila, entre inúmeros outros, não deixavam passar uma oportunidade de se pintar. Alguns se pintaram várias vezes. Michelangelo, em suas Madonas, projetava na figura do Menino Jesus, sentado no colo de Maria, autorretratos psicológicos de sua infância em Caprese, órfão de mãe e espancado pelo pai. O advento da web 2.0 expandiu o falar de si. O que era privilégio dos grandes, poetas e pintores, foi estendido aos pequenos e passou a ser de domínio público. Todos adquiriram voz, no sentido figurado e literal da palavra. É aí que entra a selfie, dando a todos o direito de falar de si. O poeta, que se enreda no eu lírico, e o pintor, que se espelha no autorretrato, trabalham com modalidades diferentes: um usa a palavra; o outro, a imagem. Já o internauta, que se projeta na selfie, caminha pela multimodalidade, ao vivo e a cores. Usa, no mínimo, a imagem, mas pode usar também a palavra, o áudio e o vídeo, incluindo a voz e o gesto. Cada um produz sentido com o que tem: o poeta com a palavra, o pintor com a imagem, o internauta com tudo. As críticas ao falar de si são bem conhecidas e podem ser resumidas em dois grandes problemas, vistos como os malefícios maiores da internet: culto ao ego e exposição da vida privada. As críticas do culto exacerbado ao ego são extremamente negativas: as pessoas aparentam o que não são, ostentam o que não têm e dizem o que não sabem. A exposição excessiva da vida privada é um problema ainda mais sério. Os sentimentos e as intimidades do dia a dia, seja o sorvete que alguém vai saborear, a roupa que vai vestir para esperar a pessoa amada ou o filho recém-nascido no berço do hospital, tudo vira selfie, e transforma a vida numa vitrine. A ideia é de que essa exposição pública dilui e enfraquece os laços de amizade verdadeira que une as pessoas. Como diria Hannah Arendt, autora muito citada pelos críticos da internet, uma existência vivida inteiramente em público, na presença de outros, torna-se superficial. Hannah Arendt faleceu em 1975, antes da internet e muito antes da selfie. Enquanto viveu, não sabia o que sabemos hoje, com o emprego da ressonância magnética que os cientistas usam para perscrutar as profundezas do cérebro e mostrar o que acontece lá dentro, muito além da superfície do couro cabeludo. Estudos conduzidos pelos cientistas da Universidade de Harvard, Diana I. Tamir e Jason P. Mitchell, mostraram que, quando as pessoas falam de si, elas ativam as partes do cérebro que produzem a dopamina, o hormônio do prazer. O efeito é uma conectividade mais intensa dos neurônios. Resultado: falar de si não só é tão profundo quanto nosso cérebro, como ainda o torna mais elástico, facilitando a memória, a motivação e a aprendizagem. Sobre a selfie, especificamente, temos as investigações da Futurizon, uma empresa que faz pesquisas sob encomenda e que prevê para as selfies uma série de possibilidades para os próximos cinco anos. Em um artigo publicado em 2016, o pesquisador Ian Pearson antecipa dez possíveis usos das selfies, combinando recursos da inteligência artificial com análise de imagens e bancos de dados disponíveis em tempo real. As fotos de si mesmos tiradas pelos usuários podem trazer melhorias para as áreas do lazer, segurança, saúde, trabalho, compras etc., não só facilitando a verificação da identidade, mas também trazendo soluções para muitos dos problemas encontrados nas atividades do dia a dia. Fonte: LEFFA, Vilson. Do eu lírico à selfie. Disponível em: <https://parabolaeditorial.com.br/blog/entry/lingua-portuguesa-tecnologia-e-ensino.html>. Acesso em: 09 junho 2017. (Adaptado)
Considere as ideias apresentadas no texto e o sentido das expressões idiomáticas ir de encontro a ou ir ao encontro de para responder à questão. Assim como a poesia e a pintura oportunizam a que os artistas falem de si mesmos, a web 2.0 dá a seus usuários essa mesma oportunidade. Essa assertiva vai ____________ que o autor declara em todos falamos de nós mesmos, grandes e pequenos (l.8-9). A selfie é uma forma de falar de si, e falar de si, segundo pesquisas recentes, atua beneficamente sobre o cérebro. Essa assertiva vai ____________ tese de que, além das áreas do lazer, segurança, trabalho, compras, etc. (l.90-91), a área da cognição tem melhorias advindas das fotos de si mesmos tiradas pelos usuários (l.88-89). Assinale a alternativa que completa corretamente as lacunas.
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.


