Língua PortuguesaInterpretação de textosInstituto Exittus 2023
CLINAB
Questão de Língua Portuguesa
Minga, zóio de prata Eram elas as senhoras-donas, ali no beco do Calabrote. Quem transitasse pelo beco, tivesse cuidado… Passasse quieto e bonzinho. Não se engraçasse nem fizesse cara de pouco. E quem fosse de entrar, empurrasse a porta de dentro, com fala curta e dinheiro pronto. Escândalo de mulher-dama não dava; nunca deu; também, nunca foram levadas, como tantas, para capinar na frente da cadeia. Família de respeito podia passar toda hora, não via nada. Macho, porém, que não se fizesse de besta… Eram donas e autoridade no beco. O beco era delas. E tinham prestígio. Duas irmãs, morando juntas na mesma casa, de porta e janela aberta aos homens que quisessem entrar; isso a Zóio de Prata. Já a Dondoca, tinha seu homem e era pontual a ele só. Também eram conhecidas por As Cômodas, na roda da macheza. Minga era durona. Não tretasse com ela, saindo sem deixar a taxa… Um que tentou a rasteira, ela alcançou já fora do beco e deixou sem as calças no meio da rua. Tinha mesmo um bugalho branco, saltado, e era vesga do outro. Espinhenta, de cabelo sarará, mulatona encorpada, de bacia estreita, peito masculino, de mamilos duros, musculosa; servindo bem no ofício, de fala curta, braço forte, mãos grandes. Um dia, voltava ela do mercado com um frango na mão, deu de cara com a irmã chorando, de cara amassada e beiço partido. Tinha entrado na peia do amigo — o Izé da Bina — à-toa, ruindade de pingado ordinário. Dei’stá — disse ela — sai fora e deixa por minha conta. Óia, vai depená esse frango pra nóis na casa da vizinha e só entra quando eu chamá… Dondoca foi fazer o mandado. Estava ela na casa da vizinha depenando o frango, quando chegou o Izé da Bina, todo mandante, de paletó preto, gravata borboleta, calça engomada. Entrou no quarto e gritou autoritário pela Dondoca. Quem apareceu foi a Zóio de Prata, de manga arregaçada e porrete na mão. Atirou-se no mulato com vontade e foi porretada de direita e canhota. Bateu com sustância, sovou com fôlego, quebrou as carnes, moeu bem moído. No fim, jogou fora o cacete e entrou de corpo. Numa boa sobarbada deu com o crioulo no chão. Sentou em cima e esmurrou à vontade. Quebrou as ventas, partiu dois dentes, entrou no olho… xingou nomes… desses de ouvindo dizer o Antônio Meiaquarta, tipo de rua, rei dos bocas-sujas da cidade: eu sei dois contos e quinhentos de nomes indecentes… Zóio de Prata sabe cinco contos… apanhei dela, bateu em mim… tou descarado, apanhei dela… muié praceada… êta muié sagais. Depois de ver o cabra mole, estirado, fungando, Zóio de Prata assungou a saia, abriu as pernas e mijou na cara de Izé da Bina. Estava vingada a Dondoca e consolidada a fama das Cômodas. Referência: CORALINA, Cora. Estórias da Casa Velha da Ponte. São Paulo: Global Editora, 1988, p. 13.
Analise as proposições abaixo: 1- No texto, o ambiente em que se estabelecem as ações não é um qualquer, mas o beco, lugar daqueles que não têm espaço na cidade e, por extensão, na sociedade tradicional. 2- A mulher marginalizada assume, no contexto da história narrada, um papel de sujeito de sua história, ocupando o lugar de autoridade, a ponto de tomar atitudes enérgicas para manter a posição de domínio conquistado. 3- Essa narrativa recebe o nome da protagonista, uma das duas prostitutas de um beco da cidade. 4- O enunciado “Eram elas senhoras-donas, ali no beco do Calabrote”, retirado do texto, refere-se anaforicamente às duas prostitutas sobre as quais o enunciador narra a história. 5- O emprego do pronome elas, no texto, revela que Minga não é a única mulher da narrativa. Ambas, Minga e Dondoca são apresentadas pelo enunciador como senhoras-donas do beco. 2 6- As escolhas e exclusões dos recursos expressivos, estabelecendo relações entre enunciador e coenunciador, são capazes de revelar a presença da subjetividade na linguagem. São verdadeiras:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.
