Língua PortuguesaEstratégias e tipos de argumentoDECEx 2024
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Questão de Língua Portuguesa
Os terríveis custos de uma infância baseada no telefone – Assassinato digital Walcyr Carrasco Ao contrário de tempos passados, quando sumir com alguém exigia certo grau de dificuldade e até risco criminal, hoje tornou-se facílimo dar fim a uma pessoa. Bastam um dedo e algumas teclas. É possível mudar completamente o círculo de amizades, sumir da turma, buscar novos ares, sem grandes enfrentamentos. Um amigo estava falando de sua ex: “Bloqueei”. Explicou que bloqueou em tudo: no WhatsApp, no Instagram, no Face. Em qualquer outra rede social, uma pessoa existe ou não existe. Se é bloqueada em todos os canais em que pode se comunicar com a outra, tecnicamente não existe mais. A gente só sabe que conhece, mas ela pode cair em um nicho de internet e desaparecer de vez. Simplesmente deixa de estar presente. Mesmo porque, na atualidade, a presença é mais digital que física em um número imenso de casos. Houve um tempo em que eu me admirava ao dar uma “limpa” no celular. Por que tanta gente, com quem nunca converso, tantos endereços que já não fazem parte do meu dia a dia? Para meu susto, recebi reclamações: “Por que você me deletou?”, “Me bloqueou?”. Na prática, respondia: “Porque a gente não se falava mais”. Descobri que estar na minha rede mesmo sem papo era um modo de afirmar a existência da pessoa em minha vida. Portanto, ofensivo ser excluído. Parecia sem sentido. Mas entendi. Se a pessoa for deletada ou, pior, bloqueada, simplesmente deixa de existir. A comparação é forte, mas inevitável: morre. Só observo as pessoas com quem tenho relacionamento real. Mas são muitas as que conferem, e sabem exatamente quando e se saí de suas redes. “Por quê?”, perguntam. Tento ser gentil e explicar que a gente não se falava mais. São palavras mal recebidas. Parece que estar na rede de mais e mais pessoas conta socialmente. Não estou falando de influencers, mas de pessoas que querem entrelaçar suas histórias com as minhas, existir no meu universo. Sem falar naquelas que um dia conheci rapidamente, mas sem nenhuma interação. Fica difícil explicar por que bloqueei alguém: se já nem conversava, era apenas um nome na minha lista. Fica difícil também entender por que alguém faz questão de estar presente em listagens de pessoas que nem respondem. Mas excluir ou bloquear alguém corresponde a uma morte, mesmo que eu jamais fale com a pessoa. Recebo inúmeras reclamações: “Por que me excluiu?”. Simbolicamente, excluir alguém de uma rede social ou de um aplicativo de bate-papo equivale a um assassinato. Não que eu me sinta assim, não quero matar ninguém. Estou falando da reação das pessoas excluídas. A pessoa sai não só de minhas redes sociais, mas de minha vida. Deixa de me acompanhar, mesmo digitalmente, e não existe mais para mim, também digitalmente. Eu ainda acredito nas relações de carne e osso, nos abraços, nos encontros longos e profundos. Mas descubro que os relacionamentos digitais tomaram um espaço impressionante. Deletar equivale a dizer adeus. E dizer adeus é sempre uma forma de luto. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/walcyr-carrasco/assassinato-digital/. Acesso em: 26 ago. 2024.
No TEXTO 5, qual é o principal argumento do autor em relação à facilidade de “dar fim a uma pessoa” (l. 2) nos dias atuais?
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.
