Língua PortuguesaEstrangeirismos e empréstimos linguísticosNCE e FUJB (UFRJ) 2005
UNEMAT
Questão de Língua Portuguesa
TERCEIRO MUNDO Marcos Augusto Gonçalves, Folha de São Paulo Abre-se a porta do elevador e, antes que alguém possa esboçar o primeiro passo para a saída, uma legião de gravatas, bigodes, lavandas, tênis e óculos avança para o interior do cubículo. A simples operação de troca de passageiros não chega ao fim sem uma seqüência de esbarrões, contorções, desvios e contatos de corpo. “É coisa de Terceiro Mundo”, queixa-se a moça de cabelos escovados, enquanto realinha seu tailleur. De fato, o processo de socialização do Brasil não parece prever, entre tantas outras coisas, o comportamento adequado em elevadores. Entra-se e sai-se como num formigueiro. Mas o comentário da moça de cabelos escovados não é simplesmente uma constatação sociológica. É uma declaração de distinção social. Ela faz parte dessa pequena fatia de brasileiros que passeia pelo país como um inglês em férias pela Índia. “Primeiro Mundo” e “Terceiro Mundo” são expressões que conquistaram o vocabulário desse grupo com uma função clara: reforçar os emblemas do apartheid econômico que vigora no país. Nesta acepção, “Primeiro Mundo” significa: jatinho, telefone celular, carro importado, restaurantes a preços extorsivos ornados com espelhos e dourados, camarote vip, arquitetura faraônica [...] Em geral a expressão sintetiza uma descrição e é precedida pela palavra “coisa”. “Terceiro Mundo”, ao inverso, nomeia os inúmeros incômodos da miséria e do caos circulante. As coisas que atrapalham as férias.[...] Numa operação ideológica perversa, o ápice da pirâmide social passou a se autodesignar “Primeiro Mundo”, deixando o resto – os pobres – no “Terceiro”. Mas quem já cruzou o oceano sabe perfeitamente que o que distingue os chamados países do Primeiro Mundo não é a lista de símbolos de consumo de luxo de predileção dos nossos ricos. É a vigência de uma civilização, de uma cultura, de um contrato social sob o signo do respeito. É a valorização do trabalho e do conhecimento. É o acesso amplo ao bem-estar social. Não é pagar salário de fome, comprar um BMW com cascata e filhote de jacaré, furar os sinais vermelhos e estacionar em fila tripla na frente do restaurante.
Tailleur e apartheid são estrangeirismos empregados no texto por:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.
