Questões de Língua Portuguesa · Selecon

Língua PortuguesaComparação entre textos e intertextualidadeSelecon 2021

CM Cuiabá

Questão de Língua Portuguesa

A crise da ecologia psíquica O mundo é infinitamente complexo. Todo ato, por 1 mais simples, extrapola em muito a intenção de quem o pratica; ao acender uma lâmpada ou abrir a torneira, por exemplo, eu não só gero o efeito local pretendido, mas aciono uma vasta e intrincada cadeia de eventos cujas ramificações se alastram, para a frente e para trás, numa miríade de outros efeitos e desdobramentos. A crise ecológica é o resultado conjunto – imprevisto e indesejado – de uma infinidade de ações motivadas por escolhas e 10 desejos que, na sua origem, nada têm a ver com o problema criado: a fumaça tóxica das usinas chinesas movidas a carvão russo ilegalmente produzido torna-se chuva ácida e o câncer pulmonar dos coreanos; os gases emitidos por c a r r o s a m e r i c a n o s m o v i d o s a p e t r ó l e o venezuelano aceleram o derretimento das geleiras groenlandesas que provoca a elevação do nível dos oceanos. A interdependência dos fenômenos ecológicos ignora as convenções da geopolítica. 20 – A conjectura de uma crise da ecologia psíquica é a tese de que a degradação do mundo natural que nos cerca tem um correlato em nosso mundo interno. “Desejo sem ação gera pestilência”. O psiquismo arcaico do animal humano – uma herança, como o nosso corpo, do ambiente evolutivo da espécie – não aceita de bom grado as exigências e interdições da vida civilizada. Assim como o metabolismo entre sociedade e natureza no mundo moderno produziu a crise ambiental, de 30 igual modo a nossa natureza interna vem sofrendo as consequências inadvertidas e perversas de uma civilização em guerra com as pulsões instintivas e indomadas da mente e calcada no ideal da desanimalização da humanidade. A crise da ecologia psíquica é fruto da severidade da renúncia instintual imposta por um processo civilizatório agressivamente calculista, o artifício e a hipocrisia permeiam os vínculos erótico-afetivos enquanto a 40 competição feroz, a ansiedade e a ambição irrestrita dominam o mundo da produção e consumo. – Mas, se é verdade que algo nas profundezas da alma humana – no nosso mais remoto psiquismo – está sendo agredido e aviltado pelo processo civilizatório, quais seriam as evidências disso? Seria precipitado alegar que a conjectura tem uma base empírica conclusiva, mas 2 alguns fatos relevantes sugerem que algo semelhante possa estar ocorrendo. Nos países de 50 alta renda per capita, uma em cada cinco pessoas em idade de trabalho sofre algum tipo de distúrbio mental a cada ano, sendo aproximadamente 25% delas acometidas por quadros severos, como esquizofrenia e transtorno bipolar, e o restante por doenças menos debilitadoras como depressão, ansiedade, estresse pós-traumático e transtorno de déficit de atenção (diagnosticado em cerca de 17% dos meninos estadunidenses até dez anos contra menos de 5% no resto do mundo). Entre a 60 população abaixo de setenta anos, a soma dos anos de vida perdidos por morte prematura e invalidez (disability-adjusted life years) causada por doenças mentais atinge 17,4 anos, contra 15,9 p a r a o c â n c e r e 1 4 , 8 p a r a m o l é s t i a s cardiovasculares. Os suicídios superam as mortes causadas por acidentes em estradas nos Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra. “Nas sociedades ocidentais”, resume um estudo recente, “a depressão e a ansiedade são responsáveis por 70 mais infelicidade [misery] do que as doenças físicas e por muito mais infelicidade do que a oriunda da pobreza e do desemprego.” As irrupções recorrentes de atos violentos praticados sem motivação aparente e a explosão da demanda por drogas legais e ilegais – antidepressivos ( c o n s u m i d o s p o r c e r c a d e 1 0 % d o s estadunidenses), ansiolíticos, soníferos, narcóticos, estimulantes e substâncias psicoativas – são outras tantas evidências de que o mundo 80 m o d e r n o p o s s i v e l m e n t e p a d e c e d e u m a degradação do ambiente psicossocial análoga à devastação do ambiente físico. – A encíclica Laudato si' do papa Francisco – uma bela e bemvinda contribuição da Igreja católica à causa ambiental – enuncia com exemplar clareza a conjectura da crise da ecologia psíquica: “os desertos externos estão aumentando no mundo porque os desertos internos se tornaram tão vastos”. Eduardo Giannetti (Trópicos utópicos: uma perspectiva brasileira da crise civilizatória. São Paulo: Cia das Letras, 2016)

A menção à encíclica papal apresenta procedimento de construção denominado:

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