Língua PortuguesaMau/mal, há/a, onde/aonde, senão/se não e outras grafiasLegalle 2023
Pref Itacurubi
Questão de Língua Portuguesa
Vou-me embora desta casa! Existe alguma coisa pior do que ter quatro anos e brigar com o pai? Existe: é ser pai e brigar com o filho de quatro anos. Mas isto a criança só descobre depois de muitos anos. Para um garoto de 4 anos, brigar com o pai, significa romper com o mundo. Uma ruptura aliás frequente, porque há poucas coisas que um guri goste mais de fazer do que brigar. Ele briga porque quer comer e porque não quer comer; porque quer se vestir ou porque não quer se vestir; não quer juntar as coisas que deixou espalhadas pelo chão. E ____ quer uma lancha com pilhas e uma nave espacial — de verdade. Todas estas coisas geram bate-boca, ao final do qual o garoto diz, ultrajado: — Ah, é? Pois então... Pois então o quê? Um país pode ameaçar outro com mísseis, ou com marines, ou com bloqueio; um adulto diz que vai quebrar a cara do inimigo; mas, um garoto, pode ameaçar com quê? Com o único trunfo que eles têm: — Eu vou-me embora desta casa! Ao que, invariavelmente, os pais respondem: vai, vai de uma vez. Ué, mas não seria o caso deles suplicarem, não meu filho, não vai, não abandona teus velhos pais? Meio incrédulo, repete: — Olha que eu vou, hein? Vai, é a dura resposta. E aí o menino não tem outro jeito: para salvar sua honra (e como têm honra, os garotos de quatro anos!) ele tem de partir. Começa arrumando a mala: numa sacola de plástico, ele coloca os objetos mais necessários: um revólver de plástico, os homenzinhos do Playmobil (aos 4 anos, o Kit de sobrevivência é mais restrito). Enquanto isto, os pais estão jantando, ou vendo TV, aparentemente indiferentes ao grande passo que vai ser dado. O que só reforça a disposição do filho pródigo em potencial: porque esses aí não me merecem, eu vou-me embora mesmo. Mas, para onde? Para onde, José? Manuel Bandeira podia ir para Pasárgada, ____ era amigo do rei; aos quatro anos, contudo, a relação com a realeza é muito remota. O guri abre a porta da rua (essas coisas são mais dramáticas em casas do que em apartamentos); olha para fora; está escuro, está frio, chove. Ele hesita; está agora em território de ninguém, tão diminuto quanto o é a sua independência. Ir ou não ir? Nem Hamlet viveu dilema tão cruel. Lá de dentro vem um grito: — Fecha essa porta que está frio! Esta é a linha dura (pai ou mãe). Mas sempre há um mediador — pai ou mãe — que negocia um recuo honroso: — Está bem, vem para dentro. Vamos esquecer tudo! O garoto resiste, com toda a bravura que ainda lhe resta. Por fim, ele volta, mas sob como condições: quando o pai for ao Centro, ele trará um trem elétrico, desde que não seja muito caro, naturalmente. A paz enfim alcançada, o garoto volta para dentro. Até a próxima briga. SCLIAR, Moacyr. São Paulo: Editora Ática, 1998 (adaptado).
As lacunas nas linhas 12 e 40 podem ser preenchidas, respectivamente, com:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.


