Língua PortuguesaMetáfora e comparaçãoCom. Org. (IFSP) 2025
IF SP
Questão de Língua Portuguesa
9 Leia o texto: A bomba suja Introduzo na poesia A palavra diarreia. Não pela palavra fria Mas pelo que ela semeia. Quem fala em flor não diz tudo. Quem me fala em dor diz demais. O poeta se torna mudo sem as palavras reais. No dicionário a palavra é mera ideia abstrata. Mais que palavra, diarreia é arma que fere e mata. Que mata mais do que faca, mais que bala de fuzil, homem, mulher e criança no interior do Brasil. Por exemplo, a diarreia, no Rio Grande do Norte, de cem crianças que nascem, setenta e seis leva à morte. É como uma bomba D que explode dentro do homem quando se dispara, lenta, a espoleta da fome. É uma bomba-relógio (o relógio é o coração) que enquanto o homem trabalha vai preparando a explosão. 6 Cursos técnicos concomitantes ou subsequentes ao ensino médio - Edital nº 86/2025 Bomba colocada nele muito antes dele nascer; que quando a vida desperta nele, começa a bater. Bomba colocada nele Pelos séculos de fome e que explode em diarreia no corpo de quem não come. Não é uma bomba limpa: é uma bomba suja e mansa que elimina sem barulho vários milhões de crianças. Sobretudo no nordeste mas não apenas ali que a fome do Piauí se espalha de leste a oeste. Cabe agora perguntar quem é que faz essa fome, quem foi que ligou a bomba ao coração desse homem. Quem é que rouba a esse homem o cereal que ele planta, quem come o arroz que ele colhe se ele o colhe e não janta. Quem faz café virar dólar e faz arroz virar fome é o mesmo que põe a bomba suja no corpo do homem. Mas precisamos agora desarmar com nossas mãos a espoleta da fome que mata nossos irmãos. Mas precisamos agora deter o sabotador que instala a bomba da fome dentro do trabalhador. E sobretudo é preciso trabalhar com segurança pra dentro de cada homem trocar a arma de fome pela arma da esperança. Ferreira Gullar. Toda poesia (1950-1999), 11. ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 2001. p. 156-158. Com base na leitura do texto da questão, é possível afirmar que ( A ) o gênero poema, como quer comprovar o eu lírico, é simples ambiente multi-informacional, sem conexão com a realidade, em que é possível tratar de temas diversos simultaneamente, como, no exemplo dado, o da linguagem: “poesia”, “palavra”, “dicionário”; o das doenças: “diarreia”; o dos armamentos: “arma”, “faca”, “bala de fuzil”, “espoleta”, “bomba”; o dos alimentos: “arroz”, “cereal”, “café; o da falta de alimentos: “fome”, “corpo de quem não come”, “colhe e não janta”; o do trabalho: “homem trabalha”, “planta”, “colhe”, entre muitos outros. ( b ) o eu poético, ao introduzir em seu poema um termo que, extraído do ambiente que o deixa frio e abstrato – e que, até então, não fazia parte do vocabulário dos discursos de inspiração poética por sua natureza pouco lírica, de mau gosto –, entende que essa ação lhe proporciona, por dar a conhecer as condições humanas precárias, a expressão de que necessita para, em protesto, retratar as causas e as consequências concretas da realidade social dolorosa, comparável a uma guerra suja e dramática, com morte de “vários milhões de crianças”. ( C ) o eu poético entende que certas palavras não deveriam jamais ser empregadas na poesia, o que ele exemplifica com “diarreia”, em razão de que, trazendo prejuízo ao fazer poético, elas semeiam morte intelectual em “homem, mulher e criança”; em protesto, diz que são ferramentas de destruição, uma bomba suja que os explode, no sentido de que lhes corroem o conhecimento, roubam deles o alimento do espírito, matando de fome, sobretudo, a inteligência das crianças nordestinas, num percentual alarmante de setenta e seis a cada cem. ( d ) o gênero poema está tanto a serviço da flor quanto da dor, ou seja, do bem e do mal; contudo, há clara preferência poética pela primeira que, embora não diga tudo, é certamente oposta à segunda e, portanto, não torna mudo o eu lírico, não o deixa sem as palavras concretas para a expressão da realidade social observável; é assim que nos cabe trazer conosco a flor, ainda que liricamente, para por ela “desarmar com nossas mãos/ a espoleta da fome/ que mata nossos irmãos”. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo 7
Leia o poema a seguir: Canção da Garoa Em cima do telhado Pirulin lulin lulin, Um anjo, todo molhado, Soluça no seu fl autim. O relógio vai bater: As molas rangem sem fim. O retrato na parede Fica olhando para mim. E chove sem saber por quê... E tudo foi sempre assim! Parece que vou sofrer: Pirulin lulin lulin... Quintana, Mario. Nariz de vidro. São Paulo: Moderna, 1984. Marque a figura de linguagem cuja associação com os versos do poema está indicada corretamente:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.


