Língua PortuguesaTipologia textualCesgranrio 2026
Fundação Osorio
Questão de Língua Portuguesa
Texto XIII Mineirinho É, suponho que é em mim, como um dos representantes do nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: “O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no céu”. Respondi-lhe que “mais do que muita gente que não matou”. Por quê? No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim. 2 Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro. 3 Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais. [...] LISPECTOR, Clarice. Para não esquecer. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p. 18.
No Texto XIII, para descrever a execução de Mineirinho, o enunciador foca o olhar do leitor na imagem dos tiros que alvejaram o rapaz, descrevendo-os em perspectiva subjetiva no 2o parágrafo. Em uma aula para a 3a série do ensino médio, que recurso estilístico deve servir de pressuposto para que os estudantes reconheçam a intencionalidade discursiva desse trecho?
Mais questões de Tipologia textual
- FUNCERN 2026O elemento que relaciona os textos 1 e 2 entre si é o
- Avança SP 2026Em relação ao texto “A água nossa de cada dia”, é correto afirmar que ele se inicia de forma:
- Avança SP 2026O texto “A dúvida” é predominantemente:
- Instituto ACCESS 2026A aprendizagem envolve processos cognitivos relacionados à forma como as informações são organizadas, compreendidas e utilizadas pelos indivíduos. Textos que abordam temas científ…
- FGV 2026Leia o texto a seguir. Vendo-a comer, não entendo os motivos de termos nos separado, agora é tudo tão nebuloso que me perco buscando razões, só que não teve razão alguma. Na época…
Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.


