Língua PortuguesaEstrangeirismos e empréstimos linguísticosVunesp 2007
CM SP
Questão de Língua Portuguesa
Meu inglês brasileiro Algumas expressões de nosso cotidiano pressupõem um conhecimento da evolução da linguagem. Não é fácil inventar vocábulos e inseri-los na fala corrente. A criação de palavras obedece a uma lógica complexa e misteriosa. Não depende da vontade de ninguém. Um historiador americano, ao precisar os mecanismos de evolução da linguagem no Novo Mundo, compara Brasil, Estados Unidos e o resto do continente para mostrar que, no período que sucedeu à Independência, surgiu uma questão de linguagem nos diversos países da região, que se diferencia do que ocorreu na Europa. Segundo o autor, a identificação entre o idioma e a nacionalidade tornou-se problemática. Afinal, era incômodo para uma nação americana do século 19 procurar sua alma numa língua herdada de uma potência colonial. Nos Estados Unidos, por exemplo, um gramático escreveu, logo após a Independência, que a honra nacional exigia “um sistema que seja nosso, tanto na língua quanto no governo”. Este mesmo problema era particularmente acentuado na América espanhola, onde quase 20 países compartilhavam o mesmo idioma. No Brasil, a questão evoluiu de forma um pouco diferente, como é de seu costume. Houve menos preocupação em relação às formas do falar de Portugal, e grande abertura para o que viesse de fora. A descolonização da língua da metrópole se completa em meados do século 20, na época da “americanização”, isto é, da influência exercida pelos Estados Unidos. Esta influência se faz notar a todo o momento. Há um restaurante, por exemplo, em Pinheiros – o “Self-Kilo” – que nos faz refletir sobre a questão. O nome é simplesmente fascinante. O que significa? Consegue ser americano, francês e lusitano, ao mesmo tempo. O indivíduo em si, que é o self, se encontra com a refeição padronizada, que é o Kilo. A expressão nada significa, mas segue uma lógica e é engraçada. Ainda mais brasileiro que o “Self-Kilo”, um folheto de uma pizzaria anunciava “o sistema delivery de entregas”. Parece redundante, uma vez que delivery e entrega são a mesma coisa. Muitas pizzarias preferem usar apenas a palavra americana; a pizzaria em questão, não. Entendem-se as razões: usam-se palavras americanas, normalmente sem explicá-las; essa queria que todo mundo entendesse, mas sem abrir mão do americanismo. Afrase ilustra uma observação de Roberto DaMatta: “No Brasil as épocas históricas não se sucedem; elas se acumulam”. Apresenta, além de tudo, uma sonoridade bem brasileira. E já se propagou – há muita gente repetindo “sistema delivery de entregas”. (Mattews Shirts, Diálogo médico, maio/junho 2007. Adaptado)
As expressões “Self-Kilo” e “sistema delivery de entregas”
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

