Língua PortuguesaInterpretação de textosCPSI (UFPEL) 2009
UFPEL
Questão de Língua Portuguesa
Naiara Magalhães 1 Até trinta anos atrás, os parcos conhecimentos sobre os malefícios das noites maldormidas para a saúde 2 permitiam aos médicos uma certeza: "A privação de sono causa... sonolência". A história é lembrada pelos especialistas em 3 tom de galhofa. Sabe-se agora que, sem o repouso noturno adequado, o corpo e a mente perdem muito mais do que a 4 chance de repor as energias gastas durante o dia. Por problemas de saúde, necessidade de trabalho ou farra, a privação de 5 sono leva o organismo a um descompasso cujas consequências vão muito além da (óbvia) sonolência. "As pesquisas mais 6 recentes nos permitem classificar a falta de sono como fator de risco isolado para uma série de doenças", diz o biólogo 7 Rogerio Santos da Silva, pesquisador do Instituto do Sono, da Universidade Federal de São Paulo. As noites em claro estão 8 associadas a alguns dos mais comuns e perigosos distúrbios da modernidade, como a hipertensão, o infarto, o derrame e a 9 depressão. No caso das doenças metabólicas, como a obesidade e o diabetes, dormir mal é tão perigoso quanto não se 10 alimentar de forma equilibrada e não praticar exercícios físicos. 11 Um estudo publicado na revista científica Clinical Endocrinology & Metabolism, conduzido por pesquisadores da 12 Universidade de Chicago, mostra quão estreita é a relação entre a privação de sono e a resistência à insulina, condição que 13 predispõe ao diabetes e às doenças cardiovasculares. A insulina é o hormônio responsável por tirar as moléculas de glicose 14 da corrente sanguínea e jogá-las dentro das células. O trabalho de Chicago acompanhou onze homens e mulheres saudáveis 15 de 39 anos, em média. A pesquisa foi dividida em duas etapas, com um intervalo de três meses entre elas. Na primeira fase, 16 por catorze dias, os voluntários dormiram oito horas e meia por noite, comeram o que quiseram, nas quantidades que 17 desejaram, e não praticaram nenhuma atividade física. Na segunda, também com duração de catorze dias, apenas os hábitos 18 noturnos foram alterados. O período de sono dos participantes foi reduzido a cinco horas e meia. Ao término de cada uma 19 das etapas do experimento, foram analisadas as taxas de glicose dos voluntários. Na da diminuição do sono, a glicemia 20 média do grupo depois das refeições atingiu 144 miligramas de glicose por decilitro de sangue – o normal é 140, no 21 máximo. Ou seja, depois de duas semanas de pouco sono, os participantes do estudo de Chicago passaram da condição de 22 saudáveis para a categoria dos pré-diabéticos. 23 "O organismo interpreta o stress provocado pelo sono inadequado como se estivesse em situação de perigo", 24 diz o neurofisiologista Flavio Alóe, do Centro Interdepartamental para os Estudos do Sono da Universidade de São Paulo. 25 "Diante de tal ameaça, ele responde com o aumento da secreção dos hormônios cortisol, adrenalina e noradrenalina, 26 associados ao stress." Nos tempos de nossos ancestrais das cavernas, na permanente vigilância contra animais ferozes e 27 outras ameaças da natureza, grandes quantidades desses hormônios eram essenciais para a sobrevivência: elas significavam 28 prontidão para a fuga ou o ataque. Nos dias atuais, em excesso, a trinca de hormônios só nos faz mal. Um artigo publicado 29 em abril passado na revista Sleep, a mais prestigiosa na área da medicina do sono, estabeleceu de maneira conclusiva a 30 relação entre poucas horas de descanso noturno e hipertensão. Quem dorme mal tem cinco vezes mais probabilidade de 31 desenvolver um quadro de pressão alta do que uma pessoa sem problema para dormir. O motivo é simples: cortisol, 32 adrenalina e noradrenalina têm ação vasoconstritora, o que favorece não só a hipertensão, como as arritmias cardíacas, 33 conforme outro estudo da Universidade de São Paulo, orientado pelo médico Geraldo Lorenzi Filho, diretor do Laboratório 34 do Sono do Instituto do Coração (Incor) paulista. 35 Pesquisas anteriores investigaram a conexão entre noites maldormidas e o diabetes e a hipertensão, mas, ao 36 contrário das mais recentes, não utilizaram padrões de privação de sono próximos dos reais. "É muito difícil que uma 37 pessoa passe três dias sem dormir ou fique uma semana dormindo apenas quatro horas por noite, como faziam os 38 participantes dos estudos antigos, mas é cada vez mais frequente encontrar pessoas que dormem cinco horas e meia, como 39 os voluntários do trabalho da Universidade de Chicago", diz Lorenzi Filho. Desde a década de 60, os americanos perderam 40 em média duas horas de sono por noite. Culpa da rotina estressante e agitada das grandes cidades. Atualmente os 41 americanos dormem 6,8 horas por noite durante a semana e 7,4 aos sábados e domingos. No Brasil, a situação é muito 42 semelhante. Os paulistanos, por exemplo, passam 6,2 horas por noite na cama. É muito pouco. Ainda que o número de 43 horas, por si só, não seja o único fator para a qualidade do sono, o fato é que dormir oito horas por noite é condição 44 mínima para o descanso de 80% das pessoas. O sono ideal divide-se de quatro a seis ciclos, de uma hora e meia cada um. 45 Em cada ciclo, alternam-se as fases REM, quando ocorrem os sonhos, e as fases não REM, que se subdividem em leve, 46 intermediária e profunda. Dormir bem é dormir esse sono todo – até que os dedos cor-de-rosa da aurora surjam no céu, 47 como diria o poeta grego Homero. Revista Veja, 2 de setembro de 2009 Cargo: Técnico em Laboratório/Área: Alimentos e Laticínios - 3 / 12
De acordo com a segunda parte do título do texto – “A falta de sono já é fator de risco isolado para diversas doenças. Ela pode ser tão decisiva para o aparecimento do diabetes quanto a má alimentação e o sedentarismo” –
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

