Língua PortuguesaAntítese, paradoxo e oxímoroIBFC 2013
PC RJ
Questão de Língua Portuguesa
Texto para as questões de 1 à 12. BRASILEIRO, HOMEM DO AMANHÃ Há em nosso povo duas constantes que nos induzem a sustentar que o Brasil é o único país brasileiro de todo o mundo. Brasileiro até demais. Colunas da brasilidade, as duas colunas são: a capacidade de dar um jeito; a capacidade de adiar. A primeira é ainda escassamente conhecida, e nada compreendida, no Exterior; a segunda, no entanto, já anda bastante divulgada lá fora, sem que, direta ou sistematicamente, o corpo diplomático contribua para isso. Aquilo que Oscar Wilde e Mark Twain diziam apenas por humorismo (nunca se fazer amanhã aquilo que se pode fazer depois de amanhã), não é no Brasil uma deliberada norma de conduta, uma diretriz fundamental. Não, é mais, é bem mais forte do que qualquer princípio de vontade: um instinto inelutável, uma força espontânea da estranha e surpreendente raça brasileira. Para o brasileiro, os atos fundamentais da existência são: nascimento, reprodução, procrastinação e morte (esta última, se possível, também adiada). Adiamos em virtude dum verdadeiro e inevitável estímulo inibitório, do mesmo modo que protegemos os olhos com a mão ao surgir na nossa frente um foco luminoso intenso. A coisa deu em reflexo condicionado; proposto qualquer problema a um brasileiro, ele reage de pronto com as palavras logo à tarde; só à noite; amanhã; segunda-feira; depois do carnaval; no ano que vem. Adiamos tudo: o bem e o mal, o bom e o mau, que não se confundem, mas tantas vezes se desemparelham. Adiamos o trabalho, o encontro, o almoço, o telefonema, o dentista, o dentista nos adia, a conversa séria, o pagamento do imposto de renda, as férias, a reforma agrária, o seguro de vida, o exame médico, a visita de pêsames, o conserto do automóvel, o concerto de Beethoven, o túnel para Niterói, a festa de aniversário da criança, as relações com a China, tudo. Até o amor. Só a morte e a promissória são mais ou menos pontuais entre nós. Mesmo assim, há remédio para a promissória: o adiamento bi ou trimestral da reforma, uma instituição sacrossanta no Brasil. Quanto à morte, não devem ser esquecidos dois poemas típicos do Romantismo: na “Canção do exílio”, Gonçalves Dias roga a Deus não permitir que morra sem que volte para lá, isto é, pra cá. Já Álvares de Azevedo tem aquele poema famoso cujo refrão é sintomaticamente brasileiro: “Se eu morresse amanhã”. Como se vê, nem os românticos aceitavam morrer hoje, postulando a Deus prazos mais confortáveis. Sim, adiamos por força dum incoercível destino nacional, do mesmo modo que, por obra do fado, o francês poupa dinheiro, o inglês confia no Times, o português adora bacalhau, o alemão trabalha com furor disciplinado, o espanhol se excita com a morte, o japonês esconde o pensamento, o americano escolhe a gravata mais colorida. O brasileiro adia; logo existe. A divulgação dessa nossa capacidade autóctone para a incessante delonga transpõe as fronteiras e o Atlântico. A verdade é que já está nos manuais. Ainda há pouco, lendo um livro francês sobre o Brasil, incluído numa coleção quase didática de viagens, encontrei no fim do volume algumas informações essenciais sobre nós e a nossa terra. Entre endereços de embaixadores e consulados, estatísticas, indicações culinárias, o autor intercalou o seguinte tópico: DES MOTS Hier: ontem Aujourd'hui: hoje Demain: amanhã Le seul important est le dernier. A única palavra importante é amanhã. Ora, esse francês astuto agarrou-nos pela perna. O resto eu adio para a semana que vem. (CAMPOS, Paulo Mendes. Colunista do morro. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1965. p. 88-9.)
No sexto parágrafo, o autor afirma “Adiamos tudo: o bem e o mal, o bom e o mau.”. Assinale a opção que apresenta um comentário linguístico incorreto sobre esse trecho em destaque.
Mais questões de Antítese, paradoxo e oxímoro
- Selecon 2026Ao afirmar que Nino Cais "faz das omissões uma maneira de reaver a corporalidade" (1º parágrafo), o texto estabelece um paradoxo segundo o qual a:
- FCC 2026O Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa define “antítese” como “figura de linguagem pela qual se opõem, numa mesma frase, duas palavras de sentido contrário”. Tendo em vista ess…
- ATAME 2026No trecho "quatro décadas após a morte do autor, Tintim ainda está 'vivo':", o emprego das aspas e da palavra "vivo" evidencia uma figura de pensamento em oposição à primeira part…
- Vunesp 2026No 1o parágrafo, o paradoxo a que os autores se referem pode ser sintetizado pela oposição entre as seguintes palavras do texto:
- Ganzaroli 2026A oposição entre “relacionamentos de famosos” e “relação dos desmatamentos com a falta de água” caracteriza:
Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.


