Língua PortuguesaPronomes relativosMarinha 2023
MMB
Questão de Língua Portuguesa
Recado pro bolsinho da camisa Lourenço Diaféria Não sei como você se chama, garoto, mas te vi um dia atravessando o viaduto de concreto. Caía chuvisco. Teus cabelos estavam ensopados e a camisa de brim grudada no teu corpo magro e ágil como flecha disparada pelo arco do trabalho. Você corria saltando no reflexo do asfalto molhado, como bolinha de gude rolada na infância. Não deu tempo para perguntar teu nome. Tuas pernas finas tinham pressa. Você carregava a maleta de mão com fecho cromado, e dentro dela havia o peso da responsabilidade de papéis sérios e urgentes, que deveriam chegar a um ponto qualquer da Cidade, antes que se fechassem os guichês e portarias. Outra vez te vi, garoto. Fazia então um sol redondo e cheio pendurado no travessão do espaço. Outra vez, teus cabelos úmidos de suor, a camisa de brim manchada, as calças rústicas mostrando a marca da barra que tua mãe soltou de noite, fio por fio, com um sorriso e um orgulho: - O moleque está crescendo! Não sei como você se chama, garoto. Te conheço de vista escalando os edifícios, alpinista de elevadores, abridor de picadas na multidão, ponta de lança rompedor nesta briga de foice que são as ruas da Cidade. Garoto que cresce sob o sol e chuva carregando na maleta cheques, duplicatas, títulos, recibos, cartas, telegramas, tutu, bufunfa, grana e um retrato da menina que te espera na lanchonete. Teu nome é: - gente. Inventaram outro nome enrolado para dizer que você é garoto do batente. Office-boy. Guri que finta banco, escritório, repartição, fila, balcão, pedido de certidão, imposto a pagar, taxa de conservação, título no protesto e que mata no peito e baixa no terreno quando encontra os olhos da garota da caixa, que pergunta de modo muito legal: - Tem dois cruzeiros trocados? Moleque valente que acorda cedo, engole café com pão, fala tchau mesmo, vai pro ponto do ônibus ou estação, se pendura na condução, se vira mais que pião, tem sua turma, conta vantagem, lê jornal na banca, esquenta a marmita, discute a seleção, e depois do almoço bebe um refrigerante gelado e pede uma esfirra com limão. E depois toca de novo a zunir pela Cidade, conhecido em tudo que é esquina, oi daqui, oi dali, até que a tarde chega e o garoto sai correndo de volta pra casa, vestir o guarda-pó, apanhar a esferográfica, enfiar os cadernos na sacola e enfrentar a escola, o sono, a voz do professor, o quadro-negro, a equação de duas incógnitas, depois de ter passado o dia inteiro gastando sola. Guri, teu nome é: - gente. Menino de escritório, menino do batente, que agarra o trabalho com unhas e dentes, sem você a Cidade amanheceria paralisada como bicho enorme ao qual houvessem cortado as pernas. Pois bem: este recado não é para ser entregue a ninguém, a não ser a você mesmo. Se quiser, guarde-o no bolsinho da camisa. Um dia, quando você estiver completamente crescido, quando tiver bigodes, telefones, papéis importantes para preencher, alguns cabelos brancos; e sua mãe não precisar (ou não puder mais) desmanchar a barra de suas calças que ficaram curtas; quando você tiver de dar ordens de serviço a outros garotos da Cidade, saberá que, para chegar a qualquer lugar, o segredo é não desistir no meio do caminho. Mas não se esqueça nunca de que as oportunidades não apenas se recebem ou se conquistam. As oportunidades também devem ser oferecidas para que as pessoas pequenas saibam que seu nome é: - gente. No futebol da vida, garoto, a parada é dura e a bola, dividida. Jogue o jogo mais limpo que você tiver. Jogue sério. Não afrouxe se o passe recebido parecer longo demais. Os mais bonitos gols da vida são marcados pelos que acreditam na força de seu pique. Ponha esse recado no bolsinho da camisa, guri. Um dia você descobrirá que a vida nem sempre é a conquista da taça. A vida é participar do campeonato. Vai nela, garotão! (Antologia da crônica brasileira - de Machado de Assis a Lourenço Diaféria. São Paulo: Moderna, 2005. p. 196-9.) Fonte: Livro-Português: Linguagem, 3/ William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães, 11.ed - São Paulo: Saraiva, 2016. p.35-7.
Assinale a opção em que a palavra QUE pertence a uma classe gramatical diferente das demais.
Mais questões de Pronomes relativos
- Fundatec 2026Assinale a alternativa que indica corretamente a função gramatical ou o sentido dos termos destacados nos seguintes trechos, retirados do texto: I. “havia pouca exploração das var…
- IGEDUC 2026No período "Esse investimento afetivo cria uma rede de apoio sólida que resiste às pressões da vida moderna de forma equilibrada e resiliente", a palavra "que" integra a estrutura…
- Avança SP 2026Assinale a alternativa em que a palavra destacada é um pronome relativo.
- FGV 2026Entre as frases abaixo, assinale aquela que mostra uma construção correta e adequada no uso do pronome relativo.
- Fundatec 2026Analise os trechos a seguir, retirados do texto: • “vi uma daquelas tendas que surgem de repente ___ beira da estrada, onde se encontra de tudo um pouco”. • “e se, de algum modo,…
Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

