Questões de Língua Portuguesa · Cebraspe

Língua PortuguesaInterpretação de textosCebraspe 2019

PC_DF_19_ESCRIVAO

Questão de Língua Portuguesa

Página: 2 Matriz_CB \t/1 Fernando arrancou o paletó no auge da impaciência e perguntou com voz esganiçada se eu pretendia ficar a noite inteira ali de estátua enquanto ele teria que encher o 4 tanque naquela escuridão de merda porque ninguém lhe passava o raio da lanterna. — Onde está a lanterna? 7 — Mas onde poderia estar a lanterna senão no porta-luvas, a princesa esqueceu? Através do vidro, a estrela maior (Vênus) pulsava 10 reflexos azuis. Gostaria de estar numa nave, mas com o motor desligado, sem ruído, sem nada. Quieta. Ou neste carro silencioso mas sem ele. Já fazia algum tempo que eu 13 queria estar sem ele, mesmo com o problema de ter acabado a gasolina. — As coisas ficariam mais fáceis se você fosse 16 menos grosso — eu disse, entreabrindo a mão e experimentando a lanterna no pedregulho que achei na estrada. 19 — Está bem, minha princesa, se não for muito incômodo, será que poderia me passar a lanterninha? Quando me lembro dessa noite (e estou sempre 22 lembrando) me vejo repartida em dois momentos: antes e depois. Antes, as pequenas palavras, os pequenos gestos, os pequenos amores culminados nesse Fernando, aventura 25 medíocre de gozo breve e convivência comprida. Se ao menos ele não fizesse aquela voz para perguntar se por acaso alguém tinha levado a sua caneta. Se por acaso 28 alguém tinha pensado em comprar um novo fio dental, este estava no fim. Não está, respondi, é que ele se enredou lá dentro, se a gente tirar esta plaqueta (tentei levantar a 31 plaqueta) a gente vê que o rolo está inteiro mas enredado e quando o fio se enreda desse jeito, nunca mais!, melhor jogar fora e começar outro rolo. Não joguei. Anos e anos 34 tentando desenredar o fio impossível, medo da solidão? Medo de me encontrar quando tão ardentemente me buscava? Lygia Fagundes Telles. Noturno Amarelo. In: Mistérios. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981 (com adaptações).

Julgue os itens seguintes, relativos aos sentidos e a aspectos linguísticos do texto precedente. O fio dental enredado é usado pela personagem como metáfora para denotar não só o nível de desgaste do seu relacionamento infeliz, mas também para explicitar sua passividade diante de tal fato.

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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.