Língua PortuguesaOutros temasUFSC 2016
UFSC
Questão de Língua Portuguesa
Texto 1 Ora pois, uma língua bem brasileira Análise de textos antigos e de entrevistas expõe as marcas próprias do idioma no país, o alcance do R caipira e os lugares que preservam modos antigos de falar Carlos Fioravanti A possibilidade de ser simples, dispensar elementos gramaticais teoricamente essenciais 02 e responder “sim, comprei” quando alguém pergunta “você comprou o carro?” é uma das 03 características que conferem flexibilidade e identidade ao português brasileiro. A análise de documentos antigos e de entrevistas de campo ao longo dos últimos trinta anos está mostrando que o português brasileiro já pode ser considerado único, diferente do português 06 europeu, do mesmo modo que o inglês americano é distinto do inglês britânico. O português brasileiro ainda não é, porém, uma língua autônoma: talvez seja – na previsão de 08 especialistas, em cerca de duzentos anos – quando acumular peculiaridades que nos 09 impeçam de entender inteiramente o que um nativo de Portugal diz. A expansão do português no Brasil, as variações regionais com suas possíveis 11 explicações, que fazem o “urubu” de São Paulo ser chamado de “corvo” no Sul do país, e as 12 raízes das inovações da linguagem estão emergindo por meio do trabalho de cerca de duzentos linguistas. De acordo com estudos da Universidade de São Paulo (USP), uma 14 inovação do português brasileiro, por enquanto sem equivalente em Portugal, é o R caipira, às vezes tão intenso que parece valer por dois ou três, como em porrrta ou carrrne. Associar o R caipira apenas ao interior paulista, porém, é uma imprecisão geográfica e 17 histórica, embora o R desavergonhado tenha sido uma das marcas do estilo matuto do ator 18 Amácio Mazzaropi em seus 32 filmes, produzidos de 1952 a 1980. Seguindo as rotas dos bandeirantes paulistas em busca de ouro, os linguistas encontraram o R supostamente típico de São Paulo em cidades de Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e oeste 21 de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, formando um modo de falar similar ao português do século XVIII. Quem tiver paciência e ouvido apurado poderá encontrar também na região 23 central do Brasil – e em cidades do litoral – o S chiado, uma característica hoje típica do falar 24 carioca, que veio com os portugueses em 1808 e era um sinal de prestígio por representar o falar da Corte. Mesmo os portugueses não eram originais: os especialistas argumentam que o 26 S chiado, que faz da esquina uma shquina, veio dos nobres franceses, que os portugueses 27 admiravam. A história da língua portuguesa no Brasil está trazendo à tona as características 29 preservadas do português, como a troca do L pelo R, resultando em pranta em vez de planta. Camões registrou essa troca em Os lusíadas – lá está um frautas no lugar de flautas – e o cantor e compositor paulista Adoniran Barbosa a deixou registrada em diversas composições, 32 em frases como “frechada do teu olhar”, do samba Tiro ao Álvaro. Em levantamentos de 33 campo, pesquisadores da USP observaram que moradores do interior tanto do Brasil quanto de Portugal, principalmente os menos escolarizados, ainda falam desse modo. Outro sinal de preservação da língua identificado por especialistas do Rio de Janeiro e de São Paulo, dessa 36 vez em documentos antigos, foi a gente ou as gentes como sinônimo de “nós” e hoje uma das marcas próprias do português brasileiro. 38 Célia Lopes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), encontrou registros de a 39 gente em documentos do século XVI e, com mais frequência, a partir do século XIX. Era uma forma de indicar a primeira pessoa do plural, no sentido de todo mundo com a inclusão 41 necessária do eu. Segundo ela, o emprego de a gente pode passar descompromisso e 42 indefinição: quem diz a gente em geral não deixa claro se pretende se comprometer com o que está falando ou se se vê como parte do grupo, como em “a gente precisa fazer”. Já o 44 pronome nós, como em “nós precisamos fazer”, expressa responsabilidade e compromisso. Nos últimos 30 anos, ela notou, a gente instalou-se nos espaços antes ocupados pelo nós e se tornou um recurso bastante usado por todas as idades e classes sociais no país inteiro, 47 embora nos livros de gramática permaneça na marginalidade. Administrador Página 3 48 Outro sinal da evolução do português brasileiro são as construções híbridas, com um verbo que não concorda mais com o pronome, do tipo tu não sabe?, e a mistura dos pronomes de tratamento você e tu, como em “se você precisar, vou te ajudar”. Os portugueses europeus 51 poderiam alegar que se trata de mais uma prova de nossa capacidade de desfigurar a língua lusitana, mas talvez não tenham tanta razão para se queixar. Célia Lopes encontrou a mistura 53 de pronomes de tratamento, que ela e outros linguistas não consideram mais um erro, em 54 cartas do marquês do Lavradio, que foi vice-rei do Brasil de 1769 a 1796, e, mais de dois séculos depois, em uma entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. 56 Linguistas de vários estados do país estão desenterrando as raízes do português 57 brasileiro ao examinar cartas pessoais e administrativas, testamentos, relatos de viagens, processos judiciais, cartas de leitores e anúncios de jornais desde o século XVI, coletados em 59 instituições como a Biblioteca Nacional e o Arquivo Público do Estado de São Paulo. A equipe de Célia Lopes tem encontrado também na feira de antiguidades do sábado da Praça XV de Novembro, no centro do Rio, cartas antigas e outros tesouros linguísticos, nem sempre 62 valorizados. “Um estudante me trouxe cartas maravilhosas encontradas no lixo”, ela contou. Disponível em: <http://revistapesquisa.fapesp.br/2015/04/08/ora-pois-uma-lingua-bem-brasileira/?cat=capa>. Acesso em: 21 jul. 2016. [Adaptado]
Concurso Público – Edital 015/DDP/2016 Cargo/Especialidade – Administrador Atenção: NÃO ABRA este caderno antes de autorizado pelo fiscal. 1. O tempo total concedido para a resolução desta prova (Língua Portuguesa e Conhecimentos Específicos) é de três horas, incluindo o tempo destinado ao preenchimento do cartão-resposta. 2. Confira, no cartão-resposta, seu nome, seu número de inscrição e o cargo/especialidade para o qual se inscreveu e registre essas informações nos espaços abaixo. Coloque seu nome e assine no local indicado. Verifique, no cartão-resposta, se há marcações indevidas nos campos destinados às respostas. Se houver, reclame imediatamente ao fiscal. 3. Depois de autorizado pelo fiscal, verifique se faltam folhas no caderno de prova, se a sequência de quarenta questões está correta e se há imperfeições gráficas que possam causar dúvidas. Comunique imediatamente ao fiscal qualquer irregularidade identificada. 4. Cada questão objetiva é apresentada com cinco alternativas diferentes de respostas (de “A” a “E”), das quais apenas uma é correta. 5. A interpretação das questões é parte integrante da prova, não sendo permitidas perguntas aos fiscais. Se necessário, utilize espaços e/ou páginas em branco para rascunho. Não destaque folhas do caderno de prova, exceto a grade constante da última folha. 6. Transcreva as respostas para o cartão-resposta com caneta esferográfica transparente de tinta preta (preferencialmente) ou azul. O cartão-resposta será o único documento válido para efeito de correção; em hipótese alguma ocorrerá sua substituição por erro de preenchimento ou qualquer dano causado por você. 7. Durante a realização da prova não poderá ocorrer: comunicação de qualquer tipo entre candidatos, porte/uso de material didático-pedagógico, de telefone celular, relógio (qualquer tipo), controle remoto, armas, boné, óculos escuros, calculadora, tablet, pen drive, MP-player ou qualquer tipo de aparelho eletrônico. 8. Caso esteja portando algum dos objetos mencionados acima, eles deverão ser embalados, identificados e deixados à frente na sala, em local visível, antes do início da prova. Embalagens para tal fim serão fornecidas pela COPERVE/UFSC. Objetos eletrônicos deverão estar desligados. 9. Ao terminar, entregue ao fiscal o seu caderno de prova e o cartão-resposta. Você só poderá entregar este material e se retirar definitivamente do local de prova após as 16h30min. 10. Os três últimos candidatos somente poderão entregar as suas provas e o cartão-resposta e retirar-se do local simultaneamente. 11. Para conferir suas respostas com o gabarito oficial quando de sua divulgação, anote-as na grade disponibilizada na última folha do caderno de prova, a qual poderá ser destacada e levada com você. ASSINATURA DO(A) CANDIDATO(A) Administrador Página 2
Segundo o autor do Texto 1, o português do Brasil se tornará uma língua autônoma em relação ao português de Portugal quando:
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Questão de prova oficial, com o gabarito definitivo publicado pela banca. Reproduzida para fins de estudo.

